Perfil: Yves de La Taille

0 6 abril 2015 | 18:51

O nome logo entrega a origem francesa de Yves de La Taille, psicólogo que, desde a década de 1980, se dedica ao campo da psicologia moral, ciência que investiga os processos mentais que levam alguém a obedecer ou não regras e valores. Naturalizado brasileiro, La Taille é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sendo considerado uma verdadeira referência na área do desenvolvimento moral. Pelo Grupo A, o especialista, que refuta o título de educador, pois prefere reservar o título “a quem realmente põe a mão na massa da sala de aula”, tem alguns livros publicados, entre eles Crise de valores ou valores em crise, Formação ética e Moral e ética. Em uma conversa com o BlogA, o psicólogo conta mais sobre seu envolvimento com a questão moral, a distância da França e também suas impressões sobre o Brasil e de que forma o país pode evoluir no que diz respeito a Educação. 

Quando surgiu o interesse pela temática da moral?

Meu interesse pela temática da moral nasceu durante o curso de graduação de Psicologia. Aconteceu o seguinte: fiquei encantado pela área de Psicologia do Desenvolvimento, notadamente por intermédio da teoria de Jean Piaget. A partir daí, minhas atividades, enquanto aluno, se dividiram em duas: por um lado, cursar as disciplinas necessárias à obtenção do diploma e, de outro, à noite, depois de minhas aulas na Aliança Francesa, estudar livros de Piaget. Um deles caiu nas minhas mãos: Juízo moral na criança. Quando acabei de ler, sabia que havia acabado de descobrir o tema ao qual me dedicaria doravante.


Yves de La Taille é Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

Quais são as maiores diferenças que o senhor enxerga entre os métodos pedagógicos de seu país de origem e o Brasil? 

Sinceramente, eu não penso que se possa dizer que exista um método pedagógico que represente o Brasil. Aqui, ainda convivem práticas antigas e modernas. Embora eu esteja defasado do que se faz na França hoje, pois faz tempo que deixei os bancos escolares daquele país, pelo que eu sei, o ensino na França ainda é bastante tradicional, em parte porque não tanto sujeito a “modas” como é o caso do Brasil, mas também porque é muito conservador e corporativista. O Brasil é mais aberto a inovações, e isso é bom. Mas eu apontaria duas diferenças, não relacionadas a método, mas à estrutura da educação. 

A primeira é o fato de o período na França ser integral. Isso falta no Brasil. Não se trata tanto de carga horária, mas de como ela é distribuída no tempo. É muito bom um aluno poder permanecer o dia inteiro na escola, e é também excelente para o professor que se dedica apenas a uma escola. A segunda é o programa do Ensino Médio. No Brasil, ele é “generalista”, com a abolição dos antigos “científico” e “clássico”’. Na França, permanecem classes de Ensino Médio com ênfase numa orientação ou em outra, e penso que isso é melhor. Fiquei sinceramente com pena vendo meus filhos serem obrigados a engolir biologia, física, química, sociologia, literatura e etc, sem nada poder priorizar e, eu diria até, “respirar”.

A formação ética deve contar com uma disciplina própria, como era o caso das disciplinas de moral e cívica de antigamente, ou é uma prática que deve ser difundida no dia a dia da escola?

Uma disciplina, que pode até ser chamada de Moral e Cívica, pode ser útil para trazer conhecimentos sobre o que a humanidade tem refletido sobre os dois temas, assim como é útil uma disciplina de Sociologia para passar aos alunos noções sobre o referido objeto de conhecimento. No caso de uma disciplina sobre moral e civismo, o currículo desta deveria ser estritamente definido para evitar que o professor responsável tome a liberdade de dar o “seu” ponto de vista particular sobre valores. Porém, o problema é que tal disciplina não pode assumir o nome de “educação”, como se quis fazer acreditar anos e anos atrás no Brasil e alhures. Uma educação moral e uma formação ética, que mereçam esses nomes dependem de uma prática difundida no dia a dia da escola, pois de nada adiantarão belos discursos sobre o bem e o mal, sobre a vida, se não houver, na prática, uma autêntica vida moral na escola. O cuidado com a qualidade ética do convívio escolar é fundamental, mas, como se sabe, ele tem sido negligenciado, como o atestam as incessantes queixas sobre bullying. Há também como proposta interessante a chamada transversalidade, que implica que os temas morais e éticos sejam tratados ao longo da escolaridade em várias disciplinas, cada qual guardando sua especificidade.

O senhor afirma que a proposta de temas transversais na escola não funcionou no Brasil. Por quê?

A proposta não funcionou porque nem chegou a ser realmente implementada. No final da década de 1990, o governo de então lançou um programa chamado, se não me falha a memória, Parâmetros em Ação. Visava a formar professores para aplicar as propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNS), que incluíam os chamados temas transversais. Porém, como é praticamente regra no Brasil, o governo seguinte não deu sequência a esse trabalho de formação e os PCNS foram colocados para escanteio, sem que nada fosse colocado no lugar. Por outro lado, a transversalidade, embora proposta inteligente e generosa, não costuma ser institucionalmente seguida. Fiz parte de júri para avaliar propostas em torno dos temas transversais como saúde, ética, educação sexual e etc. Mas a grande maioria padecia de uma grave limitação: eram propostas de um professor isolado, portanto, não mobilizavam a instituição como um todo, necessária à genuína transversalidade. Em um dos meus livros, lembro que a ideia da transversalidade data, no mínimo, do começo do século XX e, a seu respeito, Piaget já dizia que “cada professor, centrado na sua própria disciplina, acaba por adiar o cuidado de explicitar seu sentido humano e o ano passa sem que haja discussões morais”. Tal adiamento já dura um século.

Quais políticas de governo o senhor apontaria como essenciais para obter melhorias na educação do País?

 Não creio ter as credenciais necessárias para responder a uma pergunta tão ampla, mas limito-me, portanto, a sublinhar dois pontos que já comentei: ensino em tempo integral e um programa de Ensino Médio menos “sufocante”. Acrescentaria apenas mais um: colocar no comando do Ministério da Educação (MEC) um educador, e permitir que este permaneça um mandato inteiro em seu cargo. Mas não é o que tem acontecido. Um vai lá, e depois resolve ser prefeito. Outro passa por lá para depois mudar para outro ministério mais atraente. Outro não chega a completar três meses no cargo. E assim por diante. Que se confie o MEC a um educador que conhece ‘por dentro’ os problemas e as virtudes da educação. E, de preferência, que ele não se ache na obrigação de vestir o uniforme ministerial, com paletó e gravata. Que arregace as mangas.

Qual a diferença entre estabelecer regras e oferecer uma formação ética aos estudantes?

Em primeiro lugar, aceitemos a seguinte definição de ética, de autoria de Paul Ricoeur, diferente da habitual que se confunde com a moral: “vida boa”, para e com outrem, em instituições justas. Nesta definição, ética remete à dimensão de uma vida boa, ou seja, de uma vida que vale a pena ser vivida, mas somente merece o nome de ética uma “vida boa” regulada pela moral, daí a referência ao outro: para o outro implica generosidade, com o outro implica igualdade e cooperação e instituições justas implicam tanto a dimensão da justiça quanto da política. Isto posto, fiquemos com a dimensão moral. A moral é feita de princípios dos quais se derivam regras. Do ponto de vista do desenvolvimento psicológico, o primeiro contato da criança se dá com as regras, mas, se bem sucedido, caminhará em direção aos princípios. Logo, oferecer uma formação ética vai muito além da imposição de regras, pois envolve a razão de ser destas regras, ou seja, seus princípios, e a perspectiva de uma “vida boa” implicam investimentos existenciais.


Yves de La Taille tem três títulos publicados pelo Grupo A.

Entre adolescentes, a desobediência e o teste de limites são traços naturais. Como separar o que é desobediência e o que é desrespeito?

A desobediência se refere à transgressão voluntária a regras, por exemplo, não chegar na hora à escola, ou a ordens de alguma autoridade, como não responder ao professor que interroga um aluno. Note-se que a desobediência pode ser perfeitamente legítima. Um aluno pode decidir não responder às perguntas de um professor que claramente o trata com injustiça. Desrespeito se refere ao tratamento que se dá a alguém, tratamento este que lhe nega a dignidade, como, por exemplo, a humilhação. Estamos aqui no campo da moral. Para finalizar, lembremos que a desobediência não implica desrespeito em relação à pessoa desobedecida. Um aluno pode desobedecer às ordens de um professor, e mesmo assim tratá-lo com civilidade.

O aluno que age com desrespeito na sala de aula, o faz sabendo do fato ou geralmente já legitimou internamente seus próprios valores não condizentes com o ambiente?

Pode haver atos de desrespeito por assim dizer inconscientes. Dou um exemplo de minha prática. Vejo um aluno dormindo durante a minha aula e, depois de acordá-lo, digo que dormir implica agir como se a pessoa que está dando aula não existisse, o que é uma forma de desrespeito. Ora, frequentemente o aluno concorda comigo, pede desculpa, pois, na prática, nunca havia refletido sobre a dimensão de desrespeito implicada no simples ato de dormir durante a aula. Porém, é claro, pode haver atos intencionais de desrespeito para com o professor e para com colegas. O problema agora está no senso moral, evoluído ou não, da pessoa desrespeitosa. Atos desrespeitosos são, infelizmente, bastante frequentes. Mas, também, pudera, a escola não tem cuidado nem da educação moral, nem da formação ética.


Inspiração de abril: o mês da educação

1 30 março 2015 | 18:14

No dia 28 de abril, celebra-se o Dia da Educação, mas o Grupo A vai dedicar o mês inteiro ao tema, trazendo matérias, entrevistas e indicações de livros para debater o futuro da área. Talvez mais do que nunca, a educação passa por profundas transformações, com mudanças estruturais que exigem novas ideias e soluções na sala de aula. A popularização de novas tecnologias e a expansão da internet estabelecem um novo paradigma no qual contar apenas com quadro negro e giz não será suficiente para ensinar. Para nós, do Grupo A, que desde o início tivemos o livro como fonte de inspiração, hoje, miramos os novos desafios da educação, nas possibilidades que se abrem com a tecnologia - como educação a distância, blended e flipped learning.

Não são apenas os jovens que dominam com destreza as novas tecnologias, afeitos a smartphones, tablets e comunicações em rede. Também as instituições de ensino estão adotando com cada vez mais sucesso plataformas de aprendizagem, como Blackboard e Moodlerooms, que trazem ferramentas de análise de dados que contribuem com a personalização do ensino e o melhor aproveitamento dos recursos de aula. Esse panorama futurista já é realidade e permite ao educador trabalhar com vídeos, jogos e fóruns, até estatísticas de notas que preveem a melhor lição para um determinado grupo, formando novos espaços de aprendizagem e de troca. 

Aliada a tecnologia, a metodologia de aprendizado ativo faz com que o estudante deixe de ser inerte e passe a ser protagonista na construção do seu aprendizado. O professor deixa de ser um retransmissor de informações e passa a ser um gestor da aprendizagem dos seus orientandos. Para isso a SAGAH, empresa do Grupo A e Hoper, contempla uma nova realidade de conteúdos, de metodologia e de competências, criando cursos eficientes e apaixonantes, com o melhor uso da tecnologia, na missão de inspirar alunos. 


A mistura entre o físico e o virtual é a mais forte tendência educacional
[FONTE: streaming media

Essas iniciativas pretendem servir às novas modalidades de ensino que vêm se confirmando como os próximos caminhos da educação. Para inspirar as reflexões desse mês, reunimos aqui algumas das tendências que formarão a escola do futuro.

Educação a distância
A possibilidade de fazer cursos pela internet, administrando seu próprio tempo e realizando as aulas em qualquer lugar, já atrai milhões de pessoas ao redor do mundo. A maior parte dos adeptos da EAD é formada por trabalhadores, pessoas que teriam dificuldades em conciliar a rotina diária profissional com aulas presenciais. O público se divide entre aqueles que já têm uma formação superior e buscam se manter atualizados ou se especializar e aqueles que, ao terminar o colégio, já estavam inseridos no mercado de trabalho mas não ingressaram na universidade tradicional. Nos dois casos, o ensino online é atraente por sua flexibilidade e, no Brasil, por seu crescente reconhecimento frente aos órgãos oficiais.

Ensino híbrido
Também conhecida por blended learning, a modalidade que se baseia tanto em aulas online quanto em aulas presenciais é uma das mais procuradas atualmente. A ideia é que os alunos façam parte das tarefas por conta própria - em casa, em bibliotecas ou até no celular - mas continuem contando com a interação pessoal com um tutor. Esse formato já é amplamente aceito pelo Ministério da Educação - que autoriza até 20% das atividades via internet - e deve abrir portas para ainda mais modalidades de ensino online.

Sala de aula invertida
A inversão da aula, ou flipped learning, é um dos tipos possíveis de ensino híbrido que consiste em inverter a lógica pedagógica ortodoxa. Em vez do sistema que prevê aulas para apresentar o conteúdo e tarefas de casa para a realização de exercícios, a sala de aula invertida incumbe os estudantes da tarefa de estudar o conteúdo em casa e realizar, na instituição de ensino, exercícios, trabalhos em grupo e testes. Assim, o estudante leva suas dúvidas ao grupo e ao professor e tem auxílio quando coloca o conhecimento em prática.


O futuro ainda é incerto, mas cheio de promessas
[FONTE: Mums in the know

Análise de dados
Com grande parte das tarefas sendo realizada online ou no computador, tornou-se muito fácil coletar dados sobre os padrões de comportamento e de desempenho dos alunos. A partir daí, a questão foi como aproveitar esse mar de informações para aprimorar a aprendizagem. Muitas soluções estão em andamento, todas elas colocando a personalização como a chave para o maior aproveitamento das aulas. Estamos falando de sistemas que analisam o desempenho do aluno em tarefas e descobrem em quais áreas ele precisa de mais ajuda, qual conteúdo precisa de mais exercícios, quais conceitos não foram apreendidos e, a partir daí, define as próximas etapas para cada estudante, conforme suas necessidades particulares.

Automação
O passo seguinte à utilização da análise de dados provavelmente será a automação dos planos de aulas, como já ocorre em algumas experiências internacionais. O professor determina, com antecedência, qual o conteúdo do período, cria um banco de dados selecionando diversas tarefas e atividades e deixa o computador definir as lições para cada aluno e a sequência em que elas serão apresentadas. O educador se torna um mediador do conhecimento e ajuda o aluno quando ele enfrenta dificuldades.

Games
Não se pode fugir do encanto que a tecnologia exerce sobre a juventude. Mas, como diz o ditado, se você não pode com o inimigo, junte-se a ele. Melhor que competir pela atenção dos alunos é colocar a aula dentro dos celulares e aproveitar o que os videogames têm de melhor e tornar o ensino mais interessante. Os jogos desenvolvem diversas habilidades, sejam motoras, intelectuais ou sociais, e podem aproximar o conteúdo do aprendiz.

O futuro da educação ainda vai contar com muito mais inovações e transformações. Sua essência dinâmica e colaborativa faz deste campo um espaço de constante evolução. São essas mudanças que o Blog A vai celebrar ao longo deste mês!

Você Viu? Clube do Carimbo alerta para prevenção do vírus HIV

1 27 março 2015 | 10:06

Nas últimas semanas, uma série de reportagens produzidas pelo Fantástico, a primeira no dia 15 de março e a outra no último domingo, 22, trouxeram à tona algumas questões referentes ao vírus HIV. E, infelizmente, não foram boas notícias. Em duas matérias investigativas, jornalistas da Rede Globo tornaram pública uma prática assustadora entre homens homossexuais soropositivos. Trata-se do “Clube do Carimbo”, um grupo de pessoas que transmitem o vírus HIV de propósito, de forma criminosa, sem que o parceiro saiba do risco que corre. 

A história não só alertou as autoridades brasileiras, como o Ministério Público, que já investiga o caso, mas especialmente quem trabalha na conscientização e na prevenção do HIV. O Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais (DDAHV) do Ministério da Saúde inclusive veio a público manifestar sua preocupação diante das repercussões das reportagens. 


Diante do “Clube do Carimbo”, prevenção sempre é o melhor caminho.
[FONTE: Não Generalize]

A prática do sexo sem proteção, barebacking, é resultado de uma decisão consciente do casal, negociada entre as partes, comum em uniões estáveis. Já o “Clube do Carimbo” é uma relação desprotegida não consensual na qual, pelo menos um dos envolvidos, é portador do HIV. Alessandra Diehl, psiquiatra e especialista em Dependência Química e Sexualidade Humana e autora de vários livros pelo Grupo A acredita que tanto o “Clube do Carimbo” quanto a prática do barebacking têm implicações ético e morais a serem discutidas, mas são diferentes. “No ‘Clube do Carimbo’ parece existir uma maior implicação de traços de personalidade, uma vez que existe o desrespeito total da vida alheia e que a noção de perigo a outrem é totalmente desprezada, ignorada e sem valor afetivo”, explicou. 

Mais do que repudiar a prática, Alessandra acredita que é preciso refletir sobre outros aspectos sociais, psicológicos e econômicos que possam estar envolvidos nessa questão. De acordo com ela, matérias que mostram a história só do ponto de vista da criminalidade não ajudam com uma reflexão que promova uma educação em saúde sexual que respeite os direitos humanos, acabando por estigmatizar ainda mais o portador do vírus HIV. “A mensagem que de fato pode ficar é a de que todos os portadores do vírus HIV desejam passar a doença para outros, o que definitivamente não pode ser generalizado”.

Muito embora não seja mais a doença da década, como foi nos anos 1980, o HIV ainda não está sob controle. Segundo Alessandra, enquanto os outros países seguem reduzindo casos, no Brasil, entre 2005 e 2013, segundo dados da UNIAIDS, houve um aumento de 11% de novos infectados. “As populações mais vulneráveis para estes índices são as mulheres profissionais do sexo, os homens que fazem sexo com homens  e os usuários de drogas”.


A AIDS é doença ligada ao comportamento sexual desprotegido ou de risco, de héteros ou gays
[FONTE: São Joaquim Online]

Para a especialista, casos como esse do “Clube do Carimbo” passam por um outro tema muito relevante para o debate, como a homofobia. Muito embora acredite que a situação tenha mudado, e que a AIDS tenha deixado de ser vista como uma doença exclusiva de gays, e sim como uma doença ligada ao comportamento sexual desprotegido ou de risco, há muito a ser feito. “O que de fato mudou da década de 80 para cá foram os esforços de políticas públicas de promover mais acesso ao diagnóstico precoce do vírus HIV e ao tratamento de forma menos burocratizada e gratuita para toda a população brasileira que dela precisar”. 

Diferente do que acontecia no passado, ter o vírus HIV não é mais uma sentença de morte. A maioria das pessoas sabe que a sobrevida pode ser longa, desde que a medicação seja utilizada de forma sistemática e adequada. Por outro lado, segundo Alessandra, parece ter havido uma banalização do uso da medicação. “Muitas pessoas não temem mais adquirir o vírus HIV porque sabem que existe uma medicação capaz de evitar a progressão da doença. No entanto, esquecem que não se trata de uma medicação qualquer, uma vez que a mesma não é isenta de efeitos colaterais, e muitos deles desagradáveis”.

Existe uma alta taxa de informação de que o preservativo previne não somente o vírus HIV, mas também a gravidez. No entanto, há também uma lacuna entre ter o conhecimento e usar camisinha nas relações sexuais de fato. “Políticas preventivas deveriam estar mais atentas às questões que envolvem os motivos pelos quais as pessoas não usam camisinha, bem como estabelecer quais as relações de gênero que estão envolvidas no não uso do preservativo e, a partir daí, tentar modificar este panorama por meio de educação sexual transformadora e emancipatória, e não a educação sexual que promove o medo e o terrorismo”. 

As mulheres, segundo Alessandra, também merecem atenção, pois elas são as que mais possuem questões que envolvem a idealização do amor romântico, atrelado à fidelidade e à isenção de um passado sexual do parceiro sexual. “O que eu quero dizer com isso? Muitos casais, tanto homossexuais quanto heterossexuais, começam a namorar usando a camisinha. Na medida em que o namoro evolui, as noções de contrato de amor e de fidelidade também aumentam, a camisinha vai ficando de lado. Um dos parceiros pode estar contaminado e não saber seu status sorológico, como pode eventualmente querer novas parcerias e se contaminar pelo não uso da camisinha.” 

Para saber mais sobre o assunto, consulte alguns livros do Grupo A que falam de AIDS em diferentes perspectivas. Afinal, informar é prevenir. ;) 

Ficha técnica: Terapia cognitivo-comportamental em grupo para crianças e adolescentes

1 25 março 2015 | 17:03

Existem muitas formas de tratar os mais diversos transtornos e questões comportamentais. O campo da psicoterapia é amplo. Porém, um tipo muito bem sucedido de terapia e que pode ser utilizada tanto na prevenção quanto na promoção da saúde é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Você talvez já tenha ouvido falar sobre ela, mas você sabe, afinal, o que é terapia cognitivo-comportamental? E mais: sabe em que situações ela pode ser melhor utilizada? Esse tipo de psicoterapia parte do pressuposto de que a forma como nós interpretamos os fatos e a nós mesmos interfere diretamente na forma como nos sentimos e nos comportamos, explica Carmem Beatriz Neufeld, organizadora e uma das autoras do novo lançamento da Artmed Editora – Terapia cognitivo-comportamental em grupo para crianças e adolescentes. Ou seja, não são necessariamente os eventos que geram sintomas e dificuldades em nossas vidas, mas, sim, a forma como os encaramos e como eles nos impactam. E, como o próprio título da obra nos dá pistas, esse tipo de psicoterapia pode ser especialmente efetivo quando aplicada a certos indivíduos, de forma coletiva. A terapia cognitivo-comportamental em grupo é uma modalidade muito interessante para a prática da promoção da saúde mental entre os mais jovens. 

No campo da saúde mental, no que diz respeito a crianças em idade escolar, há uma grande procura por ajuda com relação a transtornos de aprendizagem, déficit de atenção e desobediência na escola. Já com relação aos adolescentes, Carmem explica que a maioria das buscas por psicoterapia estão ligadas ao uso de substâncias nocivas, ao bullying, a questões sobre sexo e aos problemas de relacionamento. A intervenção com adolescentes tem suas particularidades: ela precisa ser adaptada para que não se torne infantilizada, mas também que não se aproxime demais da versão adulta do tratamento. 

No primeiro capítulo do livro, Carmem e colaboradores discorrem justamente sobre os maiores desafios da prática. De acordo com ela, um dos principais cuidados a serem tomados é conhecer exatamente em qual fase da adolescência o paciente se encontra, para que a terapia seja efetiva. No tratamento tanto de crianças quanto de adolescentes, é essencial que o terapeuta tenha consciência do que o paciente é capaz de compreender em termos abstratos naquele momento. Além disso, é preciso ter uma noção sobre o que valoriza o grupo em que o jovem está inserido, ou seja, conhecer seu contexto e seu ambiente cultural. Por fim, pais e professores devem servir de apoio para o tratamento. 

Nem todas as situações comportam uma TCC realizada em grupo, , mas, em alguns casos específicos, ela pode ser muito benéfica, explica Carmem, que é mestre em psicologia social e de personalidade na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutora em psicologia pela mesma instituição. A intervenção grupal permite que a criança ou adolescente verifique não ser o único com uma determinada dificuldade ou problema. Essa visão normalizadora e universalizadora de seu sintoma é um dos grandes ganhos da TCC em grupo, com relação à individual. “Ainda que o terapeuta individual explique isso para a criança ou para um adolescente (ou mesmo no caso de um adulto), ver alguém na mesma situação e ter a oportunidade de aprender e trocar experiência com esse alguém é um ganho que definitivamente não dá para se perder de vista”, afirma. 


A terapia em grupo é benéfica por permitir que crianças e jovens troquem experiência. 
[FONTE: Siempre 88.9]

Em uma abordagem mais crítica, Carmem acredita que, no Brasil, a prevenção e a promoção de saúde, que são temas de dois capítulos na obra, ainda estão muito aquém do que poderiam estar. Em termos de crianças e de adolescentes, especificamente, ela afirma que estamos engatinhando. Isso ocorre porque não há a criação de políticas específicas para esses grupos. Existem estratégias individualizadas, pequenos grupos de pesquisa dentro de universidades, mas não ações em massa que possam ser mais efetivas em alcançar esse público. 

Alguns tratamentos apontados pela literatura como muito benéficos para crianças e adolescentes são aqueles que trabalham com transtornos de conduta, de oposição desafiante, TDH (déficit de atenção com hiperatividade), de ansiedade e de humor, bem como com as vítimas de abuso e com o manejo de habilidades na infância e na adolescência. Todas essas são algumas das demandas infanto-juvenis nas quais a TCC tem se mostrado uma forma muito eficaz de intervenção e as quais são contempladas por capítulos do livro, que também trata do espectro autista, entre outros. Não apenas transtornos propriamente ditos podem ser tratados com TCC em grupo. Algumas questões que costumam permear o dia a dia de crianças e adolescentes, como o desenvolvimento da autoestima, o aprender a se relacionar e a lidar com o que é diferente podem ser trabalhados em conjunto, para que eles tenham uma melhor qualidade de vida. 


Você viu? TOC não precisa ser grave, basta tratar

0 23 março 2015 | 16:33

Sempre atual, o transtorno obsessivo-compulsivo, também amplamente conhecido como TOC, é um assunto que desperta curiosidade em quem não o conhece de perto, mas gera uma grande ansiedade em quem precisa viver com ele na vida diária. Novos estudos são constantemente divulgados e, ainda assim, o tema não se esgota. Como há pouco trouxe o jornal Zero Hora, os rituais de quem tem a condição não devem ser ignorados, sob risco de se intensificarem.

Para ajudar a esclarecer o tema, BlogA conversou com Aristides Cordioli, autor de TOC - Manual de terapia cognitivo-comportamental para o Transtorno obsessivo-compulsivo, psiquiatra pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e que já lecionou na instituição. O primeiro ponto merecedor de atenção é o diagnóstico do transtorno e seus primeiros sintomas. Segundo Cordioli, muita gente não sabe que tem TOC, ignorando que seu comportamento deveria ser tratado. Em uma pesquisa realizada em um colégio na cidade de Porto Alegre, descobriu-se que dez por cento dos jovens com o transtorno não conheciam sua condição. Isso se deve à presença de sintomas leves, que não chegam a ter um impacto pesado na rotina da pessoa. 


A obsessão por ordem e organização é um traço comum no TOC.
[FONTE: Newsweek]

Embora o início da doença possa ser silencioso, corre-se o risco de viver anos com um incômodo desnecessário. Hábitos como lavar as mãos depois de encostar em qualquer objeto, reler textos repetidas vezes por medo de não ter compreendido ou abrir e fechar a porta um número determinado de vezes são atitudes que, se não impedem o convício social, dificultam a rotina e estigmatizam a pessoa que realiza os rituais. Ainda assim, uma pesquisa nacional mostrou que as pessoas levam em média dezoito anos para buscar tratamento.

Um dos fatores que pode atrasar a busca por um médico é o fato de que a doença, muitas vezes, se apresenta em ciclos de melhora e piora. Os sintomas podem chegar a desaparecer, mas retornam mais tarde. Poucos casos são realmente graves e deixam a pessoa incapacitada. Apenas cerca de dez por cento dos afetados vivem casos extremos que impossibilitam sua inserção no meio social. Embora seja um número baixo, é bastante relevante, dada a gravidade da situação.

Como o próprio nome diz, o problema é compulsivo. Embora as pessoas saibam que suas ações não são realistas, como apontou o texto de Zero Hora baseado em reportagem do New York Times, elas não conseguem evitar o comportamento. Ao contrário do que muitos podem acreditar, as repetições não dão prazer, apenas trazem alívio temporário à ansiedade. Cordioli explica: “o TOC sempre envolve medos, medos de que pode acontecer alguma desgraça ou que a pessoa possa ter cometido algum erro”, então as repetições geram a ilusão de que o doente está afastando um perigo ou uma ameaça. Ele se sente responsável por evitar um futuro problema e, por isso, encontra alívio em garantir que redigiu bem um e-mail, travou corretamente a porta ou, mesmo, cumpriu algum ritual associado a uma superstição irracional, como dar batidinhas na mesa para evitar uma tragédia.


Lavar as mãos repetidas vezes é um dos mais frequentes sintomas do transtorno.
[FONTE: Call US Doc]

Para impedir que os sintomas se agravem, o ideal, como em quase todas as doenças, é diagnosticar precocemente e iniciar o tratamento o mais cedo possível. O TOC pode surgir já na infância, embora seja mais comum aparecer na adolescência, e poderá acompanhar a pessoa para o resto da vida. Por isso, é importante que os adultos, como pais e professores, estejam atentos a possíveis sinais do transtorno nas crianças, já que elas dificilmente poderão identificar o problema sozinhas. É preciso que eles tenham “conhecimento de que certos comportamentos repetitivos, ou certos rituais, medos excessivos ou irritações, como não querer tocar ou usar o banheiro” são indícios da doença, aponta Cordioli.

De qualquer maneira, o diagnóstico envolve sutilezas. Não existe uma fórmula para determinar quando um conjunto de compulsões se torna patológico. O critério se baseia no bom senso, explica Cordioli. Quando o comportamento causa sofrimento para a pessoa e prejudica seu desempenho no trabalho ou nas relações pessoais, define-se que ela precisa de tratamento. O psiquiatra ainda ressalta que às vezes, uma versão mais leve de traços típicos do TOC podem até ser benéficos, como a responsabilidade na higiene e limpeza e o perfeccionismo. Mas é necessário haver uma medida sem exagero, sem prejudicar as relações interpessoais.

As relações com os outros são, afinal, a base de uma vida emocional saudável. E conviver com alguém que tem TOC é um desafio. O doente raramente aceita bem as críticas aos seus comportamentos e, às vezes, vai esperar que a família inteira participe de seus rituais. Sendo assim, o melhor que as pessoas próximas podem fazer é sugerir a busca por tratamento, evitando sempre a agressividade. Se você se encontra nessa situação e quer saber mais sobre o assunto, a obra de Cordioli é um excelente começo, assim como o livro Transtorno obsessivo-compulsivo, também da Artmed.

BlogA Entrevista: Roberto Lamb

3 20 março 2015 | 09:13

Voltado para alunos de graduação e de pós-graduação dos cursos de Administração, Economia e Contabilidade, o livro Administração financeira chega a sua décima edição neste ano de 2015. Bastante conhecido por profissionais do ramo, o título tem revisão técnica e adaptação ao mercado brasileiro de Roberto Lamb, professor da Escola de Administração da UFRGS. Responsável por aproximar a obra da realidade nacional, Lamb conversou com BlogA sobre essa sua nova empreitada.

Segundo Lamb, o "título expressa a vocação do livro": cobrir da forma mais ampla, até onde é possível em um único volume, todo o campo da Administração financeira das organizações. Administração financeira, em sua versão original, é um líder de vendas nos Estados Unidos.

No Brasil, o livro está chegando à sua décima edição. Que elementos promovem esse sucesso globalizado?

As razões do sucesso do livro lá nos Estados Unidos também se aplicam ao Brasil. A obra enfatiza os modernos fundamentos da teoria financeira, trazendo exemplos contemporâneos que fazem a teoria financeira ganhar vida. Em vez de reunir um conjunto de tópicos não relacionados, o título apresenta a teoria das finanças corporativas com o uso de um pequeno número de poderosas ideias intuitivas integradas. São desenvolvidos os conceitos centrais das finanças modernas: arbitragem, valor presente líquido, eficiência dos mercados, teoria da agência, opções e o balanço entre retorno e risco. Esses conceitos são usados para explicar a teoria financeira dosando a teoria com aplicações. A décima edição inclui vários achados estimulantes de novas pesquisas e muito mais recursos de aprendizagem.


Roberto Lamb é professor de Finanças na Escola de Administração da UFRGS
FONTE: Divulgação

O senhor realizou a adaptação ao mercado brasileiro da obra. Quais são as principais diferenças entre o mercado nacional e o norte-americano?

As ideias fundamentais em finanças são idênticas, qualquer que seja a língua e o país, é o quadro institucional que muda. Cunhei uma metáfora que utilizo com frequência e que tem feito sucesso como representação da ideia geral. É como a ideia de um metrô. Conceitualmente é a mesma coisa, em qualquer país: um trem subterrâneo para transporte de massa. Tente, entretanto, movimentar-se no metrô de São Paulo, por exemplo, usando o mapa do metrô de Nova Iorque! Todos os mercados são diferentes entre si, pelo simples fato de que o quadro institucional é diferente em cada país. Quando me refiro ao quadro institucional estou falando do conjunto de leis, normas e práticas. As visões de mundo são diferentes. Indo mais diretamente para o que se poderia caracterizar como diferenças, podemos enumerar alguns pontos.

O quadro legal: a principal diferença está neste quesito. Enquanto no mercado norte-americano o quadro legal é o do direito consuetudinário (Common Law) no mercado brasileiro o quadro legal é o do direito codificado, o direito civil. Nos EUA, o direito é baseado em usos e costumes, não é codificado, e as decisões seguem casos decididos anteriormente, enquanto, no Brasil, as decisões baseiam-se em interpretações de leis codificadas.

Mercado: o mercado de capitais norte-americano tem longa história, com dados de mercado compilados desde o século XIX, com desenvolvimento dos principais regulamentos atuais que estavam em voga nos anos 30. Enquanto as leis atuais do mercado de capitais e da lei das sociedades por ações, no Brasil, são dos anos 1970, uma intervalo de 40 anos. Isso traz diferenças para o amadurecimento das práticas de mercado.

Investidores: nos EUA, há o hábito do investimento no mercado de ações e no mercado de dívidas. Lá cada um deve zelar por sua formação de poupança para os anos futuros. Aqui, o hábito do investimento sistemático em ações e títulos de dívidas corporativas ainda é relativamente pouco desenvolvido, o que restringe o uso do mercado de capitais como a principal fonte de recursos para financiar o investimento das empresas. Aqui, o financiamento dos investimentos ainda é muito baseado em financiamentos de agências e bancos de investimento.

Cultura geral de finanças: um grande esforço de ampliação do conhecimento em finanças tem sido desenvolvido ao longo dos anos.Novos autores nacionais têm surgido e aperfeiçoado suas produções. Entretanto, o mercado brasileiro ainda utiliza, e muito, a literatura norte-americana traduzida. Isso, por um lado, contribui para que o conhecimento em finanças acompanhe os desenvolvimentos mais adiantados da área enquanto campo de conhecimento de classe mundial, mas, por outro lado, pode restringir a compreensão do efetivo funcionamento do mercado brasileiro. Este livro procura contribuir para reduzir essa distância.

O livro tem um capítulo sobre lições da história do mercado de capitais. Quais são os exemplos brasileiros que merecem destaque?

O livro traz considerações de eventos que influem sobre o processo decisório no Brasil. Como os problemas com derivativos, pelos quais passaram grandes empresas brasileiras na crise financeira de 2008. A experiência com a lei de recuperações judiciais, experiências recentes com emissões de títulos conversíveis e bônus de subscrição, experiências de gestão financeira de empresas brasileiras internacionalizadas, e por último, mas não menos importante, os temas que tratam do mercado de capitais no Brasil, são alguns dos exemplos que merecem destaque.


Administração financeira, em sua versão original, é um líder de vendas nos Estados Unidos
FONTE: Divulgação

Como o senhor avalia o mercado de administração financeira no Brasil?

O mercado financeiro do Brasil é sofisticado, com um arcabouço legal e regulatório dos mais avançados no mundo. Tanto que as autoridades reguladoras do mercado de capitais e do Banco Central do Brasil são presença constantes. São convidados a participar ativamente dos grandes fóruns mundiais de reguladores. Os produtos e as práticas são avançados, o mercado de derivativos é avançado, o sistema bancário brasileiro está entre os líderes mundiais, as grandes empresas brasileiras têm sofisticação financeira de nível global.

Ao mesmo tempo, uma imensa quantidade de empreendedores, microempresas, empresas médias e até algumas grandes empresas se ressentem de melhor organização de sua função financeira. O gestor financeiro é um dos profissionais mais valorizados nas organizações, especialmente em momentos de incerteza, em que a oferta de crédito e recursos para as empresas e organizações passam por dificuldades. O que parece ser a norma, pois recursos abundantes não é a regra dos negócios.

Muito se fala sobre a dificuldade de abrir empresas no Brasil devido à burocracia. Existem dificuldades particulares ao nosso mercado também no âmbito da administração financeira depois de aberta a empresa?

Afora as dificuldades mencionadas, em geral, falta ao empresário iniciante maior conhecimento sobre a gestão financeira de um negócio. Notam-se em geral as seguintes dificuldades:

- a falta de separação entre o dinheiro da empresa e do dono, fazendo com que o controle do caixa do negócio na maioria das vezes é precário;

- dificuldades em determinar onde e quando ocorre o consumo e a geração de caixa, com muita confusão entre contabilidade e controle de fluxos de caixa;

- dificuldade em realizar um planejamento financeiro que ajude a orientar os negócios;

- falta de organização de dados como contas a receber, contas a pagar e estoques e, especialmente, como esses itens afetam o fluxo de caixa.

Em minha opinião, o que valoriza esta obra é a apresentação do mercado e as práticas brasileiras. Não são apêndices, mas estão dentro do desenvolvimento dos textos. Isso possibilita ao leitor realizar uma leitura atenta para as práticas brasileiras ao mesmo tempo em que compara com as do mercado norte-americano, que ilustram a forma de apresentar a teoria financeira.

Curiosidade: Gestão dos postos de trabalho

1 13 março 2015 | 10:33

Você já ouviu falar sobre gestão dos postos de trabalho? Talvez não esteja completamente familiarizado com o termo, mas muitas partes da nossa vida cotidiana estão diretamente ligadas, ou são apenas possíveis devido às descobertas dessa área. Uma maneira de compreender exatamente do que estamos falando é conhecendo exemplos, e um dos mais famosos é o modelo Toyota, a partir do qual o empresário japonês e criador do sistema Taiichi Ohno escreveu o livro Gestão dos postos de trabalho, publicado no Brasil pela Bookman. 

Altair Klippel, revisor técnico da obra, explica do que se trata: o Sistema Toyota de Produção (STP), hoje um dos grandes pilares da área, foi criado no final da Segunda Guerra Mundial, com o intuito de identificar as perdas existentes no ambiente fabril. Foram definidas as chamadas sete grandes perdas: por superprodução, por transporte, por processamento, por fabricar produtos defeituosos, por estoque, por espera e por movimentação. A partir desse diagnóstico, o STP foi capaz de desenvolver métodos e ferramentas para eliminar ou reduzir essas perdas, de forma a diminuir os custos de produção e a aumentar a produtividade do sistema em um cenário de alta competitividade. Podemos dizer, então, que essa é uma boa definição para a gestão dos postos de trabalho: uma forma de maximizar a produção, minimizando os custos. 


Taiichi Ohno foi o criador do Sistema Toyota de Produção.
[FONTE: Plywerk]

Quando falamos de perdas e de postos não estamos nos referindo apenas a maquinário e equipamentos. O profissional da área também lida com a melhor utilização de recursos humanos. Altair cita o livro Uma revolução na produtividade: a gestão lucrativa dos postos de trabalho, obra da qual é coautor, com Junico Antunes, André Seidl e Marcelo Klippel, para explicar como isso funciona. “Os ativos de uma organização são os ativos de capital e os ativos de conhecimento. O ativo de capital é aquele direcionado pelo mercado, pela realização de investimentos feitos pelos acionistas ou proprietários. Já o ativo do conhecimento é construído com a agregação de conhecimento e crescimento intelectual dos colaboradores da organização”, define. E completa: “esse ativo está diretamente relacionado com as pessoas e com sua capacidade de adquirir e desenvolver conhecimento por meio de treinamento”. 

Nesse sentido, segundo o autor, cabe ao gestor de postos de trabalho procurar implantar melhorias contínuas, o que passa, necessariamente, por gerar uma mudança comportamental em todos os colaboradores da organização por meio do aumento de seu ativo de conhecimento. As habilidades a serem desenvolvidas nos colaboradores são as seguintes: humildade e empatia, criatividade e comunicação e, por fim, trabalho em equipe. Altair explica ainda que, para o STP, as pessoas são o recurso mais valioso da organização. 

Na verdade, a própria gestão de pessoas é capaz de atuar positivamente na otimização do uso do maquinário. No momento em que os colaboradores agregam conhecimento por meio de treinamentos e atualizações a respeito de trabalho em equipe e sobre os métodos e ferramentas utilizados na empresa, a aplicação desse conhecimento sobre o maquinário aumenta a produtividade e reduz os custos de produção, atuando diretamente sobre as já definidas grandes perdas. Dessa forma, todos se direcionam para a meta da organização, “que é ganhar dinheiro”, diz Altair. 


A indústria automobilística não foi a única beneficiada pelo STP, mas mudou muito desde então. 
[FONTE: Indústria Hoje]

Formado em engenharia de minas, Altair Klippel tem graduação, mestrado e doutorado finalizados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No entanto, após entrar em contato com a engenharia de produção e, principalmente, se especializar no modelo Toyota, passou a atuar como consultor, implementando melhorias em empresas de diversos segmentos industriais, além da mineração. Por isso, baseado em sua atuação profissional, Altair define um dos maiores desafios da área: conquistar todos os colaboradores de uma organização para realizar a gestão dos postos de trabalho de acordo com conceitos, métodos e ferramentas do STP, aliados a outras metodologias de gestão. Uma dessas metodologias adjacentes é Teoria das Restrições (TOC, na sigla em inglês para Theory of Constraints), que fala justamente dos obstáculos que cada organização enfrenta, constantemente, para atingir seus objetivos. Para Altair, portanto, o desafio se coloca no momento em que, para alcançar a meta da empresa, são necessários não somente os gestores, que dão condições para que a produção se realize, como também os operadores, que fazem a produção, e todos os demais colaboradores da instituição.

Para que possamos, sem deixar dúvidas, compreender de que maneira a gestão dos postos de trabalho afeta positivamente nosso cotidiano, vamos a um pouco de história. “A partir da crise do petróleo na década de 1970, o mundo ocidental se surpreendeu com a recuperação da Toyota Motor Company, visto que a empresa já estava preparada para enfrentar um cenário de alta competitividade, produzindo baixos volumes de produção e grande variedade de produtos”, conta Altair. Ao constatar que a razão do sucesso japonês era devido aos conceitos criados por Taiichi Ohno, as empresas ocidentais passaram a copiar esse modelo de gestão. Altair friza que as diferenças culturais trouxeram algumas dificuldades para a transmissão do conhecimento. Porém, a partir daí, as empresas passaram a implementar métodos cada vez mais modernos de gestão, a fim de sobreviver em cenários cada vez mais competitivos, gerando postos de trabalho e mantendo a produção. Podemos afirmar, portanto, que essa é uma área que requer perseverança, para alcançar um padrão ótimo, e, principalmente, perspicácia, para perceber quais processos podem ser melhorados. As mudanças são complexas, mas, quando ocorrem, mudam uma organização inteira e, quem sabe, o mundo da indústria, como aconteceu com o modelo Toyota.

Ficha técnica: Guia de farmacoterapia

3 11 março 2015 | 10:25

Médicos e farmacêuticos são aliados no tratamento de doenças e na administração de medicamentos. Unindo conhecimentos, esses dois profissionais aliviam sintomas e curam enfermidades. Mas não há maneira de armazenar na memória todas as variações, possibilidades e combinações de remédios adequados para cada caso. Por isso, existem diversos guias, manuais e outros materiais de consulta que auxiliam o dia a dia do profissional e tornam o tratamento mais ágil.

O Guia de farmacoterapia é uma dessas importantes fontes de informação que devem estar sempre ao alcance das mãos do médico e do farmacêutico. O título serve como referência para consultas rápidas e foi organizado para facilitar ao máximo o acesso aos dados necessários: a obra é composta integralmente por tabelas e algoritmos. A disposição visual torna o conteúdo muito mais claro e fácil de assimilar.

Os capítulos são organizados por especialidade médica. As páginas apresentam os tratamentos sugeridos por evidências clínicas e há dicas adicionais que ajudam na escolha da melhor terapia para cada situação. Como não poderia deixar de ser, a obra traz detalhes de cada medicamento, como uma lista de benefícios e riscos, reações adversas, posologia, interações com outros medicamentos e respostas aos tratamentos.


Reprodução do livro

As especialidades abordadas são cardiologia, doenças infecciosas, endocrinologia, neurologia, gastrenterologia, pneumologia, nefrologia, reumatologia, psiquiatria, ginecologia, hematologia, terapia intensiva, fluidos e eletrólitos, tratamento da dor e urologia. Para tratar de todos esses temas com propriedade, a autoria da obra ficou a cargo de dois profissionais: Christopher P. Martin, professor no curso de Farmácia da Universidade do Texas, e Robert L. Talbert, professor de Farmácia e Medicina na mesma universidade, além de pesquisador do centro de educação farmacoterapêutica do Texas.

Na edição brasileira, a tradução ficou a cargo de Simone Köbe de Oliveira, Doutora em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pós-Doutoranda em Biotecnologia e Biociências na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Já a revisão técnica foi feita pelo farmacêutico bioquímico José Antonio de Oliveira Batistuzzo, que também é professor e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Farmácia Magistral da Faculdade de Farmácia Oswaldo Cruz. 

A obra consolidou-se como um importante recursos para todos os profissionais da área e está disponível também em ebook.

As aparências enganam

0 10 março 2015 | 15:44

*Por Cristina Ustárroz

Você sabe como dizer resumo em inglês? Diga summary, porque se você usar a palavra resume estará dizendo retomar ou recomeçar. A não ser que esteja se referindo à resumé, que vem do francês e significa currículo. A coisa é mansa, mas atropela!

Você fez faculdade? Então você foi a um college, mas se o que você tiver em mente é colégio diga school. E sabe como se diz curso de graduação? Undergraduate program. Mas curso de pós-graduação é graduate program. Pode isso, Arnaldo?

O que parece não é e o que é não parece! Isso tem nome: falsos amigos! Você pode até pensar que o ser diabólico que inventou essas palavrinhas com o intuito perverso de pegar você, de fazer você cair na armadilha de achar que sabe o que elas significam somente porque elas se assemelham a palavras no português, está neste exato momento soltando sua risada maléfica. Só que não!  

Imagine que você está em qualquer país de língua estrangeira. E você quer entrar em um banco, ou loja, ou restaurante. Enfim, você precisa passar por uma porta. Você lê push e acha, porque push lembra puxe, que deve puxar a porta para abri-la. Nâ nâ ni nâ nâ! Quando você ler push, empurre. Só puxe quando estiver escrito pull. Muahaha!


[Fonte: creatiabusiness]

Você está a fim de almoçar? Pois almoço é lunch. Quer apenas fazer um lanche? Diga snack, mas se você escorregar na pronúncia e disser snake, estará pedindo cobra. É gato por lebre! Se quiser verduras, não tenha medo de dizer vegetables, já que vegetais são plants. Mas se quiser uma sopinha básica, diga soup, pois se disser soap você estará pedindo sabão ou sabonete. Aproveite e lave bem as mãos!

Falando nisso, acredito que você só vai falar com o chef quando quiser cumprimentá-lo pela excelente refeição. Mas se tiver problemas no trabalho é com seu chefe que você tem que se entender. Diga boss. Quer um conselho? Fale com seus pais. Que são os parents, mas se você quiser dizer parentes, então diga relatives. E já vou avisando: warn é aviso e conselho é advice. Se fosse bom era vendido. 

Aliás, vai a um café beber café? E quem disse que é a mesma coisa? O estabelecimento comercial é café e a bebida é coffee. Se for beber no refeitório, diga cafeteria. Mas se quiser dizer cafeteira, diga coffee pot. Desfrute seu café! Aproveite a oportunidade e diga enjoy, que não tem nada a ver com enjoar. Mas se ficar enjoado diga feel sick! E corte o café! É preto no branco!

Vai fumar? Se for cigarro diga cigarette, porque se você disser cigar estará se referindo à charuto. Terrível, não? Também acho! Diga terrible, porque se você disser terrific estará dizendo que charuto é ótimo! E charuto está longe de ser terrific! Durma com um barulho desses. E acorde de cara boa!

Sabe aquele colar de diamantes que você não comprou para sua namorada? Pois é! Diga necklace. Porque se disser collar, você estará dizendo gola ou colarinho. Você não vai comprar uma gola, vai? Suou no colarinho? Pois quem vai ficar irritada é ela: hot under the collar

Quer dizer sacada? Diga balcony. A cena da Julieta na sacada é uma das mais famosas de Shakespeare. Mas já ouvi se referirem a essa cena como a da Julieta no balcão. O fato é que balcão é counter. Engenhoso isso, não? Então diga ingenious. Mas se quiser dizer ingênuo, faça como os franceses e diga naive. Ou diga ingenuous. É a água e o vinho! Ou apples and oranges

Appointment é compromisso. Você quer dizer anotação? Diga note. E compromise é fazer concessão ou entrar em acordo. Anote na sua agenda! Você precisa de uma? Diga calendar, organizer ou, ainda, daily planner, se estiver se referindo à agenda onde você anota os compromissos, porque se usar a palavra agenda você estará se referindo à pauta da reunião ou ordem do dia. Mas se quiser dizer agenda de endereços, diga address book. Você ainda tem uma? Isso sim é maquiavélico! Muahaha para você!

Vai instalar uma antena? Diga aerial ou antenna, porque se você disser anthem estará se referindo à hino nacional. Quer assistir TV? Não, não diga assist TV. Assist é ajudar. Diga watch TV. Mas se quiser dizer assistir aula, diga attend class. Você tem razão: tem um engraçadinho rindo nas minhas costas! 

E se assistir aula é attend class, como se diz atender? Depende! Diga answer the phone, se estiver falando em atender ao telefone; e see a patient, se estiver falando em atender um paciente. Diga meet expectations, se estiver se referindo a atender expectativas; answer a prayer, quando pedir para alguém atender as suas preces; e, finalmente, diga serve ou assist a client, se estiver falando em atender um cliente. Ih, voltamos a assistir! Serviço de assistência ao consumidor? Customer service! Sua ligação é muito importante para eles!

Você pretende participar de um concurso? Diga contest, pois se disser context estará dizendo contexto. Trata-se de um concurso de fantasias? Pois fantasia é costume. Mas se você disser custom estará dizendo costume. E pretender? Diga intend, porque se disser pretend você estará dizendo fingir ou fazer de conta. Não faça! Just do it!

Casualidade é chance, mas casualty é vítima de acidente. Delight não é delito, é prazer. Delito é crime. Ou offence. E defendant não tem nada a ver com defesa: ele é o próprio réu. Já advogado de defesa é defense attorney. Você se machucou no acidente? Diga injury, pois injúria é insult. Azar do Valdemar! 

Sabe como dizer azar? Diga bad luck, pois se disser hazard estará dizendo risco. Além de injury, você teve prejuízo no acidente? Diga damage, pois se disser prejudice estará dizendo preconceito. Hazard o Valdemar? Posso sentir daqui seu preconceito contra piadas sem graça!

Journal é revista especializada, enquanto que jornal é newspaper. Você vai dar uma palestra? Diga lecture, pois se disser reading estará dizendo leitura. Quer ir à biblioteca? Diga library, porque se usar a expressão bookstore significa que você quer ir a uma livraria. Vá a uma e compre um livro sobre esse assunto! Ou siga lendo meu texto!


[Fonte: Honduras]

Já sei, você quer ler um romance! Diga simplesmente novel. Mas se o que você realmente quer é assistir novela, então diga soap opera. Você não quer nada disso? É um simples novelo de lã que você precisa? Diga yarn. Convenhamos, duvido que você vá precisar dela. Foi buscar lã e saiu tosquiado!

Por sinal, seus novos vizinhos são pra lá de esquisitões? Diga strange, pois se disser exquisite você estará dizendo que eles são refinados. Esquisito isso, não? Very strange! Você quer dizer estrangeiro? Não diga stranger, que significa desconhecido. Diga foreigner

A propósito, como se diz legenda para filme estrangeiro? Diga subtitle, porque se disser legend estará dizendo lenda. E se o filme não tiver legenda e você precisar de uma tradução? Diga translate, pois se disser traduce estará dizendo caluniar. Com amigos assim, quem precisa de inimigos? 

Media é meio de comunicação; média é average. Notice é nota, aviso, comunicação; notícia é news. Já o verbo notice é perceber, enquanto que noticiar é inform. Não seja tão sensível. Seja sensato! Diga sensitive e sensible.  Para bom entendedor, é melhor explicar tudo direitinho.

Você quer dizer atualmente? Diga nowadays ou currently, porque se usar a palavra actually você estará dizendo na verdade. De fato!  Dados é data, data é date. E date também significa namorar. Fabric é tecido, mas fábrica é factory. Ou plant. Que também é vegetal! Que coisa, não? É cara de um, focinho de outro!

E, por falar em amigo, não, grip não é gripe. Significa agarrar firme. Gripe é flu. E tenant não é tenente. É inquilino. Lieutenant é que é tenente. Se exit significa saída, como se diz êxito em inglês? Básico: success! Ficou embaraçado com essas pequenas confusões? Não fique! Afinal, você ainda está aprendendo. Mas quer um conselho? Não use a palavra embaraçado; diga constrangido. Vá que você esteja em país de língua espanhola. Quem avisa amigo é! 

Notas altamente esclarecedoras

Galvão Bueno tira dúvidas referentes a lances do jogo com Arnaldo César Coelho, especialista em arbitragem.

Falsos amigos (false friends) são palavras em um idioma muito parecidas com outras em outro idioma. Pela semelhança, presumimos que possuem o mesmo significado, quando na verdade não possuem.

E abstract? Figurinha fácil nos Trabalhos de Conclusão de Curso, abstract é um resumo em língua estrangeira do que estará sendo abordado no trabalho.

Você sabe a diferença entre white collar e blue collar? White collar é quem trabalha em escritório (e usa camisa, gravata e terno), e blue collar é quem trabalha no chão de fábrica. Logicamente, referem-se à cor das vestimentas e dos colarinhos.

Agenda: pauta, ordem do dia, programa de governo; calendar: agenda de compromissos; address book: agenda de endereços.

E mais agendas: agenda de reforma é reform agenda; agenda comercial é trade agenda; agenda econômica é economic agenda; agenda da igualdade é equality agenda, e agenda escondida é hidden agenda.

A palavra embarazada significa grávida em espanhol.

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA. :)

Perfil: Elvino Barros

1 9 março 2015 | 10:42

Mesmo se tratando de uma ciência milenar, a medicina continua sendo uma área de transformações rápidas e numerosas, o que torna quase obrigatória a constante consulta a novas bibliografias, incluindo-se aí os manuais didáticos, especialidade do nosso Perfil do mês. Elvino Barros, autor e colaborador de diversos títulos pela Artmed Editora, é um desses doutores que também se expressam e ensinam por meio das letras, facilitando a vida de estudantes e profissionais da área. Especialista em nefrologia, Elvino Barros trabalha no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e é professor do Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em sua formação, além da graduação em Medicina pela Universidade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (UFCSPA) e do mestrado em nefrologia pela UFRGS, há também um doutorado realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um pós-doutorado em Harvard (EUA).

Dentre as obras publicadas pelo Grupo A, destacam-se Medicamentos de A a Z, um manual indispensável para o profissional da área médica e que está em sua quarta edição, bem como se sobressai o ecletismo da temática de seus livros. Elvino costuma transitar entre diversas áreas da medicina interna, apesar de sua especialidade. Em uma conversa com o BlogA, o especialista contou um pouco sobre suas escolhas, desde a própria medicina até a nefrologia, e sobre as características de suas obras. Confira!

Como se deu sua aproximação com a medicina?

A primeira lembrança que tenho, antes de decidir pela carreira médica, vem do primeiro grau (na época, primeiro ano do ginásio), quando comecei as aulas de ciências biológicas. Via o ser humano como uma máquina perfeita e tinha imensa curiosidade de saber como funcionava. Sou de família pobre e não tive nenhum parente ou conhecido médico. Estudava em um colégio simples, orientado para cursos técnicos. No final de uma aula de ciências o professor perguntou a cada aluno o que faria como profissão, respondi que seria médico. Ouvi, muito triste, a gargalhada dos colegas. Mais tarde, um deles me procurou e disse que eu tinha sido muito arrogante dizendo que seria médico. Como poderia pensar tão alto se estudava em uma escola de orientação técnica?  Cinquenta anos depois desse episódio, em uma festa de confraternização, o mesmo colega veio me cumprimentar por ter conseguido atingir meu sonho. 

Por que o senhor escolheu a nefrologia como especialidade?

A nefrologia é uma das especialidades mais completas da medicina. Os rins, órgãos vitais, desempenham um papel extraordinário no organismo, mantendo o equilíbrio necessário para o seu funcionamento e também de vários outros órgãos. Eles interagem com coração, cérebro, fígado, glândulas, pele e etc., mantendo a estabilidade necessária para manutenção da vida. Interessante é que, apesar de o rim ser um órgão vital, pois sem ele o indivíduo não poderia sobreviver, a medicina, por meio de incríveis desenvolvimentos, criou uma máquina, conhecida como “rim artificial”, que substitui a função renal. A máquina de hemodiálise permite a manutenção da vida. No Rio Grande do Sul, a primeira máquina de hemodiálise foi doada pela família Chaves Barcelos para a Santa Casa de Misericórdia, sendo usada pela primeira vez no dia 1º de janeiro de 1963. Até esta data, as pessoas morriam quando os rins paravam de funcionar. Hoje, no Brasil, mais de 100 mil pessoas fazem uso desse equipamento. Existem 750 unidades de diálise cadastradas no Brasil; no Rio Grande do Sul, são 73 unidades. Além dessa máquina maravilhosa, o transplante renal é outra maneira de tratamento quando os rins param de funcionar. Hoje, ele é realizado rotineiramente em todo o Brasil, agregando mais qualidade de vida aos pacientes. Felizmente, nos dias de hoje os pacientes com insuficiência renal terminal têm as opções de diálise e transplante renal para se manterem vivos e com boa qualidade de vida, graças à nefrologia e aos nefrologistas. Uma especialidade tão completa como essa é muito atraente, não é?

Mesmo sendo especialista em nefrologia, seus títulos tratam de temas bastante diversificados. Qual a razão dessa escolha?

Para exercer a medicina, muitos conhecimentos são necessários. Por exemplo, todo médico deve conhecer muito bem os antibióticos. São medicamentos fundamentais no tratamento de infecções, que ocorrem em todos os sistemas do organismo. Esses antibióticos, em grande parte, são excretados pelos rins. Pacientes com problemas renais podem ter dificuldade na excreção desses medicamentos, acumulando o antibiótico e intoxicando o organismo. Sempre que usarmos um antibiótico ou outro medicamento, precisamos saber se o mesmo é excretado pelos rins ou pelo fígado, e ajustar as doses, quando necessário, para evitar essas intoxicações. Por esse motivo, tenho editado livros sobre medicamentos e antibióticos.


Os rins são órgãos vitais, mas, com o avanço da ciência, sua falência já não é mais sentença de morte. 
[FONTE: Huffington Post]

O senhor tem preferência por redigir manuais?

Sempre gostei de manuais, livros práticos que ajudam no dia a dia do atendimento médico. A medicina é cada vez mais complexa e, com novos conhecimentos chegando todos os dias, fica muito difícil a atualização de todos os conteúdos. Por isso, são cada vez mais frequentes as subespecialidades. Os manuais são úteis nesse contexto, pois ajudam a resolver rapidamente as dúvidas de doses, efeitos adversos, interações, entre outros. Além disso, são utilizados por médicos, farmacêuticos, enfermeiros e demais profissionais da saúde.

Qual a contribuição, para a área médica, de livros como Medicamentos de A a Z e seus sucessores?

Esse é um bom exemplo de manual muito usado por todos os médicos. Ele traz as principais informações de forma objetiva e é de fácil manuseio. É impossível o médico guardar os nomes comerciais dos medicamentos, doses, intervalos de administração e tudo o mais. O manual nos ajuda, no momento da escolha dos medicamentos, a prescrever de maneira correta, com menos possibilidade de ocorrerem erros.

Durante sua formação, o senhor costumava ler e consultar manuais da área?

Durante a formação, necessitamos de conhecimentos mais amplos da medicina. A leitura de artigos científicos e revisões sistemáticas são obrigatórias para ampliar e atualizar os conhecimentos médicos. Os livros são fundamentais para a ampliação do conhecimento, eles sintetizam de forma didática os conteúdos médicos. Nessa etapa, os manuais são menos importantes, eles serão mais úteis no final da formação médica no momento das prescrições de medicamentos. 

A paixão de Elvino Barros pela medicina e, mais precisamente, a essencial nefrologia o levou a redigir um manual tão importante quanto Medicamentos de A a Z, bem como a colaborar com outros títulos como Exame clínico, Antimicrobianos, Clínica médica, Medicina interna na prática clínica e, é claro, Nefrologia. Conhecendo a história do médico e sua paixão pela ciência do corpo humano, bem como acompanhando a evolução da nefrologia no Brasil exposta por ele, é que podemos perceber o quanto a pesquisa, o aprendizado e a dedicação na prática médica salvam cada vez mais vidas. E, às vezes, um simples manual pode fazer a diferença para facilitar a vida do profissional que precisa colocar em prática, diariamente, tudo o que foi aprendido em anos de estudo e reflexão sobre a área médica. 

 

 

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Será que de médico, artista e louco todo mundo tem mesmo um pouco? Aqui no BlogA você vai encontrar de medicina a design, de filosofia a psicologia, de ilustração a poesia; pinceladas divertidas de todas as áreas de publicação do Grupo A. Quer nos enviar dicas ou sugestões? É só escrever para bloga(arroba)grupoa(ponto)com(ponto)br.

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