Você viu? Dieta da moda

0 8 maio 2015 | 15:53

Nomes para dietas não faltam: Dukan, da proteína, do paleolítico e até do passarinho. São programas de restrição alimentar que entram e saem de cena com tanta ou mais frequência que a própria moda, aquela das passarelas. Entretanto, sejamos sinceros, somente os muitos sortudos de metabolismo podem dizer que nunca tentaram nenhuma dieta. Existem épocas que todo mundo parece estar seguindo a mesma receita, e com a internet ao alcance dos dedos ficou mais fácil ainda encontrar receitas e orientações de como proceder. Porém, fazer uma dieta sem acompanhamento profissional pode ser perigoso, especialmente quando se pratica esporte.

"A orientação deve ser individual e baseada em uma avaliação criteriosa da história do paciente e de seus exames. Claro que algumas condutas podem gerar resultados, como o emagrecimento, mas o problema são os efeitos deste período, que podem gerar problemas maiores. As pessoas devem pensar na saúde e ter o emagrecimento como consequência", alerta Lenice Zarth Carvalho. Nutricionista, especialista em Ciências do Esporte e mestre em Ciências do Movimento Humano, Lenice colaborou na revisão técnica do Guia de nutrição desportiva, de Nancy Clark.


Dietas devem ser acompanhadas por profissionais da medicina
FONTE: UOL

Quando se pratica algum esporte, dietas feitas sem acompanhamento que excluem nutrientes são as mais preocupantes. Uma das atitudes mais comuns de quem quer perder peso é cortar os carboidratos, mas essa não é boa medida a ser tomada, segundo Lenice. "Nosso corpo precisa de carboidratos, mas de boa qualidade, nutritivos e com assimilação lenta. A exclusão deste nutriente vai provocar o uso de outras fontes para compensar, o que pode gerar a perda de tecidos musculares que devemos preservar. O organismo não sobrevive apenas com o consumo de gorduras como fontes exclusivas de energia. Devemos ajustar e retirar os excessos, além de melhorar a qualidade”.

Outro mito das dietas é que toda e qualquer gordura será castigada, mas mesmo as gorduras são fundamentais para o bom funcionamento do corpo humano de acordo com Lenice, exceto a gordura trans dos produtos industrializados. "Cada uma tem sua função, desde a oferta de energia, a manutenção das membranas celulares, a proteção de neurônios, formação do colesterol, etc. O colesterol é matéria prima para hormônios sexuais, se não consumirmos um pouco, o corpo irá produzir menos, por exemplo".

Por isso, para quem se considera um verdadeiro esportista, livros como o Guia de nutrição desportiva são tão importantes uma vez que podem servir de consulta. Esta nova edição, por exemplo, traz as mais recentes pesquisas e recomendações em suplementos, bebidas energéticas, alimentos orgânicos, ingestão de líquidos, dietas populares, carboidratos e ingestão de proteínas, bem como informações sobre treinos, competições, redução de gordura e ganho de massa muscular.

 

"Os suplementos são recursos que temos para ganhar tempo na oferta de energia ou de nutrientes recuperadores como a proteína, que é mais facilmente absorvida do que ingerir um alimento e esperar para digerir. Existem diversos suplementos com diferentes finalidades, alguns ótimos, mas o problema é como são utilizados, normalmente em excesso, o que pode ser prejudicial. Deve haver uma avaliação do indivíduo e da modalidade esportiva para adequar o uso do suplemento, se é necessário. Não existe uma regra para todos. Importante salientar que o suplemento é um recurso complementar à alimentação, que é a base de qualquer treinamento", esclarece Lenice.

Dietas costumam ser pessoais e intransferíveis, o que funciona para um, não funciona para outro, mas existem alguns consensos dentro da área que podem ser adotados sem medo por quem quer cuidar do peso. "Comer alimentos de qualidade, de preferência orgânicos, que sejam boas fontes de nutrientes e compostos bioativos, independente do valor calórico. As quantidades devem ser observadas, mas não trocar alimento de verdade por produtos industrializados, shakes, bebidas artificiais, conservas, embutidos ou qualquer produto light e diet. O que ocorre é a necessidade de especificar quando observamos que o metabolismo do indivíduo não está respondendo adequadamente ou quando as reservas de nutrientes estão desajustadas. Por isso, a individualização baseada na avaliação é tão importante".

Para quem deseja cuidar do peso e já pratica esporte, a dica da especialista é lembrar que seu corpo precisa ter boa capacidade de produzir energia, e isso depende da oferta de nutrientes, além do cuidado de fazer um bom estoque antes de exercícios vigorosos ou prolongados. Observar a hidratação antes e durante a prática de esportes e a oferta de nutrientes que promovam uma boa recuperação das fibras musculares e da energia gasta é igualmente imprescindível. “Porém, são muitas modalidades esportivas que requerem diferentes cuidados, além da condição física do indivíduo que pratica, pois até a perda de sódio no suor varia”. Ou seja, cada corpo é diferente do outro, por isso a dieta deve ser também.

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Curiosidade: coleção curso de fotografia por Michael Freeman

1 4 maio 2015 | 18:09

Você já pensou em ser fotógrafo? Há quem diga que, hoje em dia, todo mundo tem um pouco de fotógrafo. Afinal, sempre há uma câmera embutida em um smartphone e uma variedade de aplicativos de edição de imagens à disposição. Enquanto muitos fazem o clique e depois editam a imagem para ficar perfeita, o fotógrafo profissional pensa em tudo isso na produção da imagem, da luz ao recorte final. O clique é fim de um processo que mistura arte, a subjetividade do fotógrafo e o domínio de diversos elementos que podem determinar a imagem perfeita. Michael Freeman, de quem muito falamos aqui no BlogA, é um renomado fotógrafo britânico, especialista em contar histórias através de suas lentes. Freeman tem diversos títulos publicados pelo Grupo A, mas quatro deles foram feitos especialmente para os fotógrafos iniciantes: a coleção curso de fotografia. Essencialmente práticas, as obras ensinam princípios básicos e mais avançados de fotografia, sempre propondo um desafio para o aprendiz, a fim de que ele possa testar seus novos conhecimentos. 


Michael Freeman em ação na arte de contar histórias pela imagem. 
[FONTE: Michael Freeman]

Em Luz e iluminação Freeman ensina a lidar com um dos elementos mais mutáveis da composição fotográfica. Se, em fotos de estúdio, a quantidade de iluminação é decisão que parte do fotógrafo, uma tarefa que exige domínio da situação e conhecimento sobre o tema, por outro lado, na natureza, é preciso saber utilizá-la da forma como se apresenta. No fotojornalismo ou em qualquer fotografia em ambientes abertos, é preciso não apenas teoria, mas conhecimentos práticos de como trabalhar a luz natural para que a câmera registre apropriadamente. Tanto para estúdio quanto para locações internas, Freeman levanta questionamentos e ensina a solucioná-los: qual o grau de intensidade desejado para as sombras? No caso de estúdio, o equilíbrio de cor deve ser ajustado para as luzes de tungstênio ou para a luz natural que entra pelas janelas? De acordo com o próprio autor, “na medida em que você se torna fluente na linguagem da luz, essas questões deixam de ser vistas como obstáculos e passam a ser consideradas ferramentas criativas que podem ser utilizadas para você alcançar sua própria visão”.

Já em Exposição, Freeman fala sobre esse elemento que, com todas as vantagens da fotometria e do processamento da fotografia digital, tornou-se algo comumente subestimado. A exposição faz referência à quantidade de luz que é capturada durante o clique, com o ajuste de três controles de câmera: o ajuste de ISO (que é uma referência à sensibilidade do filme à luz), a abertura das lentes e a velocidade do obturador. Dominando esses controles, o fotógrafo pode imprimir expressão dramática e criatividade a suas imagens, subexpondo ou superexpondo, criando os mais variados efeitos e saturando cores. Para Freeman, as decisões referentes à exposição criam o estilo estético pessoal do fotógrafo, ao passo que alguns preferem claridade; outros, tons escuros. Alguns gostam de nitidez, já outros não se incomodam com um pouco de imprecisão. “A fotografia é grande o suficiente para acomodar todas essas abordagens, e a exposição é o meio pelo qual se pode atingi-las.”


A exposição e a luz, quando bem trabalhadas, são essenciais para passar uma mensagem por meio da fotografia.
[FONTE: Michael Freeman]

Você às vezes se pergunta qual o é o assunto de uma determinada fotografia? Qual é o personagem principal daquela imagem? Para Freeman, uma abordagem do tipo “o que está no centro do quadro é o assunto” é bastante enganadora e, em Composição, ele aprofunda o tema. Segundo ele, o que parece óbvio para o fotógrafo deve ser comunicado de forma elegante e sem rodeios ao espectador, “e é no mecanismo dessa comunicação que entra em cena a composição”. A composição passa por quase todos os elementos da foto, desde a escolha do assunto, até a decisão do enquadramento, a organização do quadro, a definição de um plano de fundo, a profundidade do campo e as orientações da imagem. Nesse livro, Michael Freeman trata de cada um desses elementos, a fim de que os estudantes de seu curso de fotografia possam trabalhar o seu olho de fotógrafo, desenvolvendo não apenas senso artístico, mas a capacidade de comunicar uma ideia por meio de suas fotografias. 

Por fim, em Edição digitalo autor fala de programas e recursos de pós-produção para a imagem digital, mas não sem antes fazer uma reflexão teórica sobre o tema, localizando a edição de imagem no contexto da produção fotográfica, a fim de que os estudantes possam entender sua função, sem cair na polarização que permeia o tema e divide fotógrafos em contra e a favor da edição digital. Existe, afinal, uma reprodução totalmente fiel da realidade? A resposta para essa e outras questões que permeiam o mundo da fotografia poderão ser formuladas pelo próprio aprendiz, ao finalizar o curso de Freeman, uma leitura obrigatória e um manual permanente para quem ama fotografar. 


Debate: a tecnologia no futuro da educação

0 29 abril 2015 | 11:42

O campo da educação está em eterno desenvolvimento. Nos últimos anos, entretanto, a sala de aula passou por rápidas e profundas transformações graças ao surgimento de novas tecnologias como tablets, smartphones, plataformas de ensino virtual e também graças à popularização do acesso à Internet. Para acompanhar os alunos nativos da era digital, os professores precisam se atualizar constantemente, até porque a tecnologia não mudou apenas as ferramentas, mas também o comportamento e a postura do aluno. Será que estamos prontos para a nova geração estudantil?

Para Hilda Alevato, autora de um dos capítulos de A formação de professores e seus desafios frente às mudanças sociais, políticas e tecnológicas, os estudantes são hoje mais questionadores. “Pedem que lhe expliquem por que precisam de escola”, comenta. É essencial que ele se sinta bem-vindo na escola, motivado a estudar e apreciar toda a experiência educativa, que não se reduz à sala de aula, mas a toda a convivência com o meio escolar. É preciso alterar a antiga lógica de que o professor sabe e o aluno não; o professor ensina e o aluno repete. Segundo Hilda, seria necessário investir no que ela considera a melhor educação: “aquela que ensina aos alunos que estudar é bom, que ler é fantástico, que descobrir coisas que nos interessam é a melhor forma de dar sentido ao esforço”.

Nesse cenário, as instituições estão ficando para trás, e as mudanças mais interessantes vêm justamente dos alunos, que não aceitam tudo passivamente. Eles “reagem, burlam, debocham, faltam às aulas, ouvem músicas, jogam em seus smartphones, filmam as bobagens e lançam na internet, escolhem os professores mais afetuosos”, comenta Hilda. A escola perde seu status inquestionável, já que a tecnologia permite que os alunos ampliem seus horizontes. Como aponta Michael Horn, autor de Inovação na sala de aula - atualizado e ampliado, os estudantes podem “se conectar com especialistas externos, construir capital social e se conectar”. 

O cerne está na formação dos professores

No que tange à adoção da tecnologia, os desafios estão, sobretudo, na formação dos professores que, para Hilda, está “extremamente atrasada, principalmente porque a maior parte dos cursos que querem introduzir transformações usam metodologias e concepções tradicionais”. Ela exemplifica com um caso que conheceu de perto: em uma disciplina de informática, os estudantes ignoravam os computadores, deixados desligados na sala, e tomavam notas em cadernos.

Embora aconteça de professores oferecerem resistência a mudanças no ambiente escolar, é importante descobrir a origem desse comportamento. Hilda enxerga problemas nas circunstâncias gerais da instituição, e não vê a resistência como tradicionalismo. Para ela, falta aos professores reflexão sobre o sentido do próprio trabalho. Também se deve considerar o medo da inovação diante das concepções sociais sobre o que é escola, combater o isolamento e o individualismo, reduzir o excesso de trabalho e garantir uma boa infraestrutura. Ela ainda aponta o problema da percepção da sociedade que “ainda pensa que o menino que não lotou os cadernos de exercícios e anotações (ou computadores, ou isso, ou aquilo) foi à escola e não ‘estudou’ nada”.

Michael tampouco vê resistência por parte dos professores, mas entende que eles, muitas vezes, são deixados de fora dos debates e decisões a respeito do ambiente escolar, o que leva a problemas como a falta de conhecimento e de propriedade sobre as mudanças. Para ele, é preciso incluir os docentes no processo e eles ficarão animados com as novas ferramentas que permitem alcançar mais estudantes. Outra vantagem evidente para os professores é a redução do tempo gasto em tarefas burocráticas e repetitivas, dando mais espaço para que os professores façam o que realmente querem: dedicar-se aos alunos.

Mesmo vencidas as barreiras de inserção da tecnologia, temos que estar atento às mudanças sociais que a tecnologia trouxe. Hoje, pode-se questionar tudo e qualquer coisa, uma vez que não contamos mais com “a crença na verdade absoluta dos textos escritos – nunca fomos tão exigidos na leitura crítica, na capacidade de ler historicamente, matematicamente, geograficamente”, analisa Hilda.


A educação acontece em qualquer lugar, não apenas na sala de aula
[FONTE: CCA

O ensino superior precisa de mudanças

O ensino superior tem suas particularidades na nova era da educação. Tanto Michael quanto Hilda veem problemas estruturais nas universidades. Para ele, o modelo tradicional não serve para a atual geração de estudantes que vão atuar na economia do conhecimento. No mundo de hoje, “não basta apenas ter passado pela escola, é preciso ter dominado conhecimento e habilidades para ter sucesso”. O problema, ele aponta, não está nos professores, mas nas faculdades mesmo, com seus conjuntos de processos, prioridades e cultura que divergem do mercado. Hilda ressalta a questão de formação dos professores, que são, muitas vezes, profissionais da área que ensinam, mas não têm conhecimentos pedagógicos “não têm a menor noção de como o ser humano aprende”.

Como mudar esse cenário? Michael coloca a questão de formar professores para que ensinem em ambientes que tiram o foco da aula do grande grupo e o colocam no indivíduo, personalizando a experiência para cada um. Para Hilda, as transformações devem ser profundas. “Penso que nossa sociedade está precisando de um amplo debate sobre a escolarização. Por que colocamos nossas crianças na escola? O que esperamos dela? Qual o valor do diploma?”. É preciso entender que a educação é muito mais que a sala de aula, ponto com o qual Michael está de acordo. “Temos que prestar atenção não apenas à tecnologia e à formação de professores, mas também ao ambiente: da infraestrutura aos modelos de ensino”. Ele sugere a criação de espaços mais inspiradores e flexíveis que sejam melhores para a aprendizagem e mais econômicos na construção. Como disse Hilda, “e todas as instituições sociais, a mais afetada pela revolução tecnológica das últimas décadas é a escola”. Temos que fazer com que esse impacto seja positivo.

Você viu? A inclusão da criança com autismo na escola

187 17 abril 2015 | 16:22

Recentemente, a mãe de um menino de quatro anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) confeccionou um panfleto com o intuito de que pais e coleguinhas compreendessem melhor seu filho. No material, ela explica que tipos de comportamentos ele poderia apresentar, bem como as coisas que o menino não gosta e, principalmente, as coisas em que ele "arrasa”, como coordenação motora, imitar e dar carinho. Essa atitude, bastante comovente, acabou chamando atenção para uma nova realidade: a partir da publicação da Lei Federal nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012, toda a criança com autismo tem o direito a se matricular na escola regular. Esse é um passo adiante na inclusão. Mas será que estamos preparados para realizá-la efetivamente? A psicopedagoga Ana Rita Bruni, coautora do livro Saúde mental na escola, um dos primeiros passos para que o educador seja capaz de incluir a criança autista na turma e nas atividades escolares é compreender o funcionamento da criança, e não apenas classificá-la. Parece simples, mas é um grande desafio, visto que o TEA é um transtorno bastante estigmatizado pela sociedade. 


O panfleto criado pela mãe de Fabrício o apresenta para seus colegasO panfleto criado pela mãe de Fabrício o apresenta para seus colegas.
[FONTE: UOL]

Ana Rita explica o que é verdade e o que é mito a respeito do autismo: “por se tratar de um espectro que abrange desde as mais sutis alterações e necessidades até as mais complexas e comprometedoras, há várias possibilidades que se aplicam a alguns e a outros não”. Ela completa: “a questão do comprometimento na socialização é um fato, porém, há de se considerar que, se houver intervenção precoce e adequada, as chances de otimização são grandes”. A crença de que a criança autista tem uma ótima memória também é bastante difundida. Há pouco, uma criança norte-americana acabou tornando-se sucesso na internet ao desenhar, na lousa, um mapa mundi completo, apenas usando a memória. Sobre isso, ela comenta: “no caso do garoto que desenhou o mapa mundi, com certeza é uma bela habilidade, mas, às vezes, essa habilidade não se reflete em coisas simples do dia-a-dia, a tal da memória operacional funcional.” No entanto, ela destaca que os autistas podem surpreender muito em seu desenvolvimento e suas conquistas, e jamais devemos subestimá-los. 

No que diz respeito à criança autista no ambiente escolar, infelizmente, acredita Ana Rita, o professor da escola básica ainda não está preparado totalmente para recebê-la, bem como não tem ferramentas para lidar com a maioria das necessidades especiais. Essa seria uma questão de formação, que raramente foca na questão do aluno com necessidades especiais, sendo esse problema mais grave no ensino fundamental II (que compreende do 6º ao 9º ano) e no ensino médio. Porém, ela afirma que tem observado grande empenho e boa vontade por parte de docentes que buscam essa capacitação e de instituições que oferecem treinamento adequado para seu quadro de funcionários. Para a especialista, algumas atitudes que o educador pode ter para incluir essa criança são, além de compreendê-la: estar atento para o que incomoda o aluno, a fim de evitar comportamentos indesejáveis; procurar oferecer recursos que facilitem sua aprendizagem, como apoios visuais, tamanho de letra ou papel diferenciados; propor atividades com tempo reduzido e maiores possibilidades de pequenas pausas, buscando antecipar qualquer alteração de comportamento; oferecer ao aluno uma rotina organizada, para que ele saiba o que acontecerá ao longo do dia; procurar antecipar sempre que possível as mudanças ou situações novas que ocorrerão. Acima de tudo, ela lembra, é preciso ter bom senso. 


 O mapa mundi desenhado pelo menino de 11 anos autista em escola norte-americana.
[FONTE: Época]

Outras políticas públicas vêm sendo aplicadas nos últimos anos para melhorar a qualidade de vida da criança com TEA. Há também projetos sendo aplicados ou em fases de estudos para sua efetivação. Dentre os que estão em funcionamento, Ana Rita cita a isenção de IPVA (imposto sobre a propriedade de veículos automotores) e de ICMS (imposto sobre circulação de mercadorias e serviços) para automóveis de pais ou cuidadores de autistas, o direito a estacionar em vagas para deficientes e o direito a retirar fraldas em postos de saúde para crianças acima de 5 anos que comprovem a necessidade de seu uso. No âmbito da escola, existe também a criação da Sala de Recursos Multifuncionais nas escolas públicas, locais que contam com um conjunto de equipamentos para atuar de forma suplementar à educação da criança especial e com a presença de um mediador. Para Ana Rita, esse é um bom recurso. “Embora seja importante a integração do aluno ao grupo-classe, participando do coletivo, há momentos em que o trabalho na sala de recursos se faz necessário e mais efetivo, seja para reforçar algum conteúdo ou mesmo trabalhar algo diferenciado do currículo adaptado”. E completa: “nessa sala, o aluno poderá ter uma melhor qualidade de atenção, pois serão poucos ou mesmo apenas ele, com um mediador focando as necessidades mais específicas”.

Sobre a atitude da mãe que criou o panfleto, Ana Rita comenta que, realmente, a falta de informação - ou mesmo a pouca informação - é um dos grandes problemas enfrentados com relação ao autismo. A criança autista é constantemente julgada e discriminada por seu comportamento. “Já presenciei situações em que a criança apresentou um comportamento mais agressivo, a mãe precisou contê-lo fisicamente e foi duramente criticada pela assistência ao redor, como mãe ingrata, que não sabia conter o filho, que iriam chamar a polícia…”. Ela afirma que o desgaste é muito grande, pela falta de conhecimento sobre o TEA, as pessoas costumam complicar as situações em vez de ajudar. “Quanto mais a população for informada, maior a chance de diminuirmos essas situações desagradáveis”, completa. Por todos esses motivos é que atitudes como a dessa mãe são tão importantes para facilitar a inclusão da criança com autismo na escola e melhorar sua qualidade de vida, juntamente com a de seus familiares e cuidadores.

BlogA Entrevista: Kátia Stocco Smole

2 15 abril 2015 | 17:43

Conhecimento presente em todas as fases de nossas vidas, a matemática ainda luta contra o estigma de disciplina difícil que adquiriu desde os primórdios da escolarização. Sua complexidade crescente é um desafio para alunos de qualquer idade, mas, principalmente, para os professores, os principais responsáveis por desmistificar a ciência dos números e por convencer os alunos de todas as idades a respeito da sua importância. Em uma conversa com o BlogA, Katia Stocco Smole, doutora e mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), e coordenadora do Grupo Mathema comenta a relevância do livro Ensinando matemática para adolescentes

Para a estudiosa, “cada educador, cada escola precisa assumir sua parte na aprendizagem do aluno. Sei que a família é importante, que pode apoiar, mas a família não ensina matemática. Quem faz isso é o professor na escola”. Por esse motivo, Katia acredita que o professor de hoje precisa ter uma atitude mais problematizadora. Além disso, deve lançar mão de todos os recursos disponíveis, como games e jogos diversos, grupos na internet e até da literatura. O mais importante, no entanto, é que o professor esteja o par do conteúdo e das formas de guiar as aulas de matemática nos dias atuais.

Qual o maior desafio enfrentando pelo professor de matemática hoje?

Os desafios são muitos, não há um desafio exclusivo. Eu nomearia quatro fatores importantes que são: saber o que ensinar e como ensinar, para que os alunos aprendam em cada uma das séries. Ajudar a organizar o fluxo idade-série, encontrar caminhos para fazer uma boa gestão da aula e as condições de ensino oferecidas (ou não), especialmente nos sistemas públicos de educação.

Com relação ao primeiro fator, saber o que ensinar e como, eu considero que ninguém ensina bem aquilo que não sabe bem. É preciso saber bem matemática para ensinar bem matemática, o que nem sempre ocorre dada a formação inicial de muitos de nós que ensinamos matemática em qualquer fase da escolaridade. Por outro lado, além de saber o que, é importante saber como ensinar: e aqui não falo de teorias ou de estudos genéricos, falo, sim, da formação inicial do professor para a escola real, o aluno real, as condições de trabalho reais. Nesse sentido, eu gostei muito da proposta mostrada no livro Ensinando matemática para adolescentes porque há nela um modelo de formação de professores que prevê estágio acompanhado de fato, por um professor da universidade e por um tutor na escola. Sinto falta disso na formação dos educadores de matemática.

Com relação ao segundo foco, ele tem a ver com a desorganização do ensino no Brasil. Um país que padece de índices vergonhosos de reprovação de alunos, que, só agora, com o Plano Nacional de Educação, passa a enfrentar a questão de uma base nacional curricular que indique claramente as aprendizagens esperadas em cada ano da escolaridade. O Brasil é um país que entendeu de modo equivocado a questão da progressão continuada e tem aprovado levas de alunos que não sabem o que deveriam saber. Caberá aos educadores que ensinam matemática entender a importância que eles têm em uma fase de transição, que, se chamados para participar de programas de aceleração, não devem entender isso como “barateamento” da escola, mas como tentativa de ajudar a corrigir as distorções criadas por um sistema ineficiente e fazer com que seus alunos aprendam o que é certo na idade certa.

Quanto ao terceiro aspecto, eu vejo que há uma dificuldade grande do professor de matemática para fazer a gestão dos diferentes tipos de alunos que têm em sala, das questões de indisciplina, das formas de conduzir ações diferenciadas de aprendizado. O professor precisa de ajuda nisso. Enfrentar esse problema claramente, saindo da solidão que a escola causa em seus profissionais é desafio tanto da formação inicial quanto do coletivo. Não há milagres, não é possível atribuir todos os problemas à falta de limites familiares. A pergunta, então, é: como, juntos, podemos melhorar a gestão do tempo, da didática, da condução do ensino, do lidar com as crianças e jovens mais difíceis? Mais uma vez, o livro traz boas situações que ilustram formas de atender a essa gestão. Finalmente, sei que não vou dizer nenhuma novidade, mas as condições de trabalho do professor, a estrutura da escola, os tempos de atuação são fatores que interferem e muito no trabalho de qualquer professor. O de Matemática não escapa desse fator.

O livro Ensinando matemática para adolescentes traz orientações para que o educador torne-se um profissional reflexivo. De que forma essa atitude influencia o ensino da matemática? Poderia nos falar um pouco sobre essas orientações?

A atitude reflexiva auxilia todo profissional da educação a ensinar pensando no que ensina, em como ensina e para quem ensina. Em síntese, o professor de matemática que reflete constantemente a respeito de sua prática e da aprendizagem dos seus alunos pode achar respostas mais interessantes para ajudar seus alunos a saberem mais matemática porque está sempre olhando para sua aula como um campo aberto a novas propostas, a busca de soluções para problemas diversos.

No que se refere ao livro Ensinando matemática para adolescentes cada capítulo auxilia o professor, especialmente aquele que inicia sua carreira docente nas reflexões acerca do ensino e aprendizagem da matemática por vários motivos: ele traz fundamentação teórica, aporte de pesquisas relacionadas ao tema em estudo no capítulo, apresenta relatos de prática de estagiários e de professores experientes que auxiliam a entender como acontece o ensino de matemática na prática da escola. Há também estudo de casos, propostas de reflexões que são atividades para o leitor desenvolver e indicação de leitura complementar.

Em particular, eu destacaria os capítulos destinados ao planejamento de matemática, à forma como os alunos aprendem, à avaliação da aprendizagem e à personalização do ensino. Sendo que, esse último, apresenta elementos para atender a alunos com necessidades especiais e alunos que podem aprender mais.

Um último destaque eu faço para o capítulo que trata da incompletude da formação de um educador. Como dizem os autores de modo indireto, um professor não se torna profissional ao finalizar a licenciatura, nem mesmo o estágio probatório. Ele se torna profissional na soma das suas experiências com outros educadores, em diferentes escolas, na convivência com os alunos que passarem por suas aulas. Um educador aprende ao longo de toda sua vida profissional após a universidade. Para todos os que concordamos com isso, o livro de Chambers & Timlin é excelente oportunidade de ampliar a aprendizagem a respeito da desafiadora profissão de professor de matemática.

Do colégio à faculdade, a matemática tem fama de causar medo nos alunos. É mesmo uma disciplina mais difícil que as outras? Como convencer os alunos de que o conhecimento matemático é útil? 

Matemática não é mais difícil, mas tem uma complexidade crescente, isto é, se você não sabe números, não aprenderá as operações. Se não entende aritmética, terá dificuldades com a álgebra. Daí a importância de cuidar para que em cada ano os alunos tenham aprendizados importantes que permitirão a ele continuar estudando e ampliar formas de pensamento. Além disso, não é possível ensinarmos matemática como aprendemos há 20 ou 30 anos. Tecnologias foram desenvolvidas, bem como formas de tornar o ensino mais desafiador e envolvente, e é importante que esses recursos sejam utilizados em aula para que mais alunos aprendam e se encantem com matemática.

Há muitas coisas da matemática que são visivelmente úteis na vida cotidiana tais como área, decimais, formas geométricas, medidas, funções, gráficos e tabelas. Outras coisas não são imediatamente aplicáveis à realidade, mas desenvolvem habilidades de pensamento importante que são úteis na resolução de problemas, como é o caso da álgebra, por exemplo. Para que o aluno perceba a diferença entre utilidade e relevância, é preciso que compreenda o que aprende, que veja sentido naquilo que estuda. Na maioria das vezes, quando desafiado a pensar, a vencer obstáculos, os alunos vêem sentido no que aprendem e, então, percebem o valor da matemática.


Kátia Stocco Smole é revisora técnica da obra.

Como manter a atenção dos adolescentes em conteúdos abstratos como a matemática? 

A matemática não é mais abstrata nem menos abstrata do que história ou geografia, por exemplo. Abstração não é um defeito da matemática, mas uma característica da forma de pensar humana que dá origem à ciência. Os egípcios construíram pirâmides usando um triângulo retângulo de lados 3, 4 e 5. Os gregos se perguntaram: por que esse triângulo e não outro? O que ele tem de especial? Vale para outros triângulos retângulos? Dessas perguntas, que ousaram ir além do visível, além do imediatamente aplicável, nasceu o Teorema de Pitágoras, com uma enormidade de aplicações dentro e fora da matemática.

Uma criança por volta de 2 anos, quando começa a se envolver com historias, abstrai. Ao longo da vida teremos níveis diferentes de abstração que nos permitirão avanços inimagináveis na criação, na elaboração da ciência, na construção de processos envolvendo leitura e escrita. Quando atribuímos à matemática o adjetivo “abstrata”, no fundo estamos dizendo que ela não faz sentido para quem aprende e, se não faz sentido, não se aprende de fato. Um modo de ajudar adolescentes a atribuírem sentido ao conhecimento matemático é fazê-los investigar, experimentar, pensar a respeito do que aprendem. 

Por exemplo, ao explorar geometria, associá-la à arte. Ao explorar funções, associá-la ao estudo de gráficos presentes nas mídias, ou a atividades de investigação utilizando tecnologia. Trabalhar com problemas com solução, sem solução, com mais de uma solução possível, propor desafios que envolvam a busca de regularidades são formas de manter a atenção do aluno nas aulas de matemática.

As novas tecnologias, como jogos virtuais, podem ajudar no ensino da matemática? 

Sim e muito. Elas permitem simulações, trabalhar com problemas mais próximos do cotidiano, superar obstáculos de precisão, fazer investigações, explorar padrões e regularidades. Para ficarmos apenas em um exemplo, se estudamos logaritmos sem calculadora, vamos ter que usar em problemas valores pequenos, com aproximação de uma casa decimal no máximo, para evitar cálculos manuais exaustivos. No entanto, se utilizamos uma calculadora científica para realizar os cálculos, podemos trabalhar sem a barreira dos cálculos manuais. Isso impacta diretamente em problemas de matemática financeira, ramo da matemática no qual usar uma ou duas casas decimais para cálculo envolvendo dinheiro pode significar uma diferença importante no montante final. A tecnologia mobile permite pesquisa em tempo real, formar grupos de discussão a respeito de matemática, comunicar dúvidas e aprendizagens. Há um mundo a se explorar na escola nesse sentido.


Dressed To Kill

1 14 abril 2015 | 11:07

Por Cristina Ustárroz*

Admita aí: a maneira como você fala com seus amigos e familiares não é a mesma de quando você faz um discurso matador. Nem de quando você está diante do gerente de RH para uma entrevista de emprego. Isso acontece porque a fala engloba vários graus de informalidade – do muito informal ao muito formal. Adequamos a fala ao evento. É como roupa: terno na praia? Não é confortável. Transparência no parque? Não é seguro! Bermuda no local de trabalho? A menos que você venda abacaxi na beira da estrada - no prob, man! Assim como a roupa, a linguagem que adotamos deve estar de acordo com o lugar ou com a situação.


[Blog iguapensenato]

Logicamente, nos expressamos mais seriamente em situações nas quais precisamos defender nossos direitos, reivindicar algo ou registrar insatisfação. É quando damos um up no português, pois o padrão de correção é mais alto na linguagem formal. Fazer cara de brabo também ajuda! Uma pergunta do tipo tu vai me entregá os documento? vira tu vais me entregar os documentos? em um piscar de olhos. E baixamos a guarda, voltando a dispensar os s e os r, inclusive na escrita, após o problema ser resolvido. Know-im-saying?

Mas se informalidade não é privilégio somente da língua falada, é na fala, porém, que temos mais liberdade de flertar com ela. Afinal de contas, pausamos, hesitamos e improvisamos ao vivo, nosso olho no olho de nosso interlocutor. E o dele no nosso. Sem ensaio ou edição. Ninguém nos pune por causa disso. Não tiramos zero na linguagem do dia a dia. É comunicação sem floreios. Totally legit! Vamos ver alguns exemplos? Let´s roll our sleeves up!

Você chamou alguém de idiota e quer se desculpar? Adote uma linguagem que esteja de acordo com a pessoa que foi insultada. Se você ofendeu um amigão do peito, diga: I’m sorry! Com gana e sem ladainha! Duas ou três vezes dependendo do tamanho do estrago. Simple as that!

Mas se xingou alguém que você nunca viu na vida, ou mais velho, ou mais poderoso, vai ter que se virar nos 30 para selecionar palavras que verdadeiramente reflitam a seriedade do seu constrangimento. Seja mais formal, quase como um gajo de portugal, e diga: I regret any distress my comments may have caused you and I hereby undertake not to repeat any such offence any time in the future. Dei uma exagerada na pompa e circunstância? Mas esse exemplo ilustra bem. It fits like a glove! E reze para ser desculpado!

Aqui vai outro: você quer pedir para alguém fazer silêncio? Diga: I would appreciate it if you would be so kind as to stop speaking. Mas se preferir ir direto ao ponto, grite com toda informalidade dos seus pulmões: Shut up! Sem medo e sem frescura! Direto na veia! Pode apostar! You can bet your boots

E mais outro: você quer ficar sozinho, mas não deseja ferir os sentimentos de quem está com você? Peça gentilmente: I wonder if you could leave me alone. Já se você quiser mandar a pessoa pastar, diga: drop dead!  Go  play in traffic! Get lost!

Como resultado desse jeito certeiro, a linguagem informal é mais, digamos, econômica. Sem rodeios! Pedir a ajuda de um professor nos estudos? Tente dizer I’m terribly sorry to bother you but I wonder if you would kindly give me some assistance with my studies. Mas se você for pedir ajuda ao seu irmão, suplique: Help me! Assim, como quem está desesperado! É comunicação espontânea! Instantânea! É carta na manga! An ace up your sleeve!  

Falando em carta, a língua escrita é mais formal do que a língua falada. Por isso, nem tudo que é aceito na fala é considerado correto na escrita. Contudo, ela não é engessada! Slangs no abstract? Foi mal! Phrasal verbs no seu currículo? Danou-se! Idiomatic expressions em exame de proficiência lingüística? Perdeu! É que em todos esses contextos formais espera-se que o candidato escreva de acordo com a norma culta. Ou seja, de acordo com a gramática. Se na fala basta comunicar-se, na escrita você deve se comunicar adequadamente. Afinal, você não estará ao lado do seu leitor para trocar uma ideia. No entanto, uma mensagem do WhatsApp Messenger possui caráter mais informal do que um email. Whatcha gonna do, man? Faça o que eu digo!

À propósito, você sabe por que o aplicativo se chama WhatsApp? Pois WhatsApp é um trocadilho com a pergunta what´s up?. Significa e aí?, o que que há?, qual é o problema?. Sai a preposição up e entra app, abreviação de application program. Inclusive ganhou variações simplificadas na escrita: virou wassup, que virou... sup! Pode um aplicativo de mensagens instantâneas, e ainda por cima com esse nome, ser utilizado em uma comunicação formal? 

Por sinal, você já percebeu que insisto em imprimir um tom informal aos meus textos? Eles não possuem conteúdo científico. Nem caráter acadêmico. Confesso: às vezes exagero nas gírias e expressões idiomáticas. Em nome do ensino do idioma, me excedo na informalidade. E quem disse que blog corporativo não pode apresentar textos leves? Mas não reconhecer o contexto, o gênero do texto, e o canal de comunicação é coisa de quem é completamente sem noção. Ou, no meu caso, cara de pau. Não faça o que eu faço! Uh-huh!

O fato é que não sai barato nos livrarmos da formalidade na escrita. Na verdade, nosso sucesso pessoal e profissional muitas vezes depende do uso que fazemos dela. Se você pertence ao ambiente acadêmico, ou tecnológico, comercial ou, ainda, empresarial, sabe sobre o que estou falando. E se pertence a qualquer outro meio, ambiente-se!

Que linguagem você vai usar para escrever um abstract? E seu currículo? Ou o catálogo com a descrição de um produto para seus clientes? Para esses específicos gêneros textuais profissionais não tem choro nem vela! Já o email transita numa boa nos dois tipos de linguagem.  É o que explicam as autoras deste lançamento bacana da Série Tekné - Inglês: Prática de Leitura e Escrita. Quer ver? Espia só:


[Inglês: Práticas de Leitura e Escrita – Série Tekné - Pag. 42]

Mas as coisas mudam. E com elas muda a linguagem. Afinal, ela é sempre feita sob medida! Made to measure! O contexto mudou? Mude a linguagem. Mude o meio com o qual se comunicar também. E não se esqueça de trocar de roupa. Antigamente as pessoas usavam suas melhores roupas no domingo – Sunday Best! Já eu prefiro usar meu jeans mais surrado no dia de descanso. Feliz da vida, acompanhando todas essas mudanças. E vestida para matar!

Notas altamente esclarecedoras

O livro Inglês: Práticas de Leitura e Escrita – Série Tekné, da Editora Penso, 2015, foi escrito por Rafaela Fetzner Drey, Isabel Cristina Tedesco Selistre e Tânia Aiub. Diferentemente de mim, elas não se excedem em nada!  A página usada no texto é a 42, mas recomendo a leitura do livro inteiro.

De modo informal, a expressão what´s up também pode ser escrita das seguintes formas: wassup, waz up, wazzup, whassup, wuzzup, além de outras. 

I regret any distress my comments may have caused you and I hereby undertake not to repeat any such offence any time in the future = lamento o sofrimento que meus comentários possam ter lhe causado e por meio deste me comprometo a não repetir tal ofensa no futuro.

I would appreciate it if you would be so kind as to stop speaking = apreciaria muito se você tivesse a gentileza de parar de falar.

I wonder if you could leave me alone = gostaria de saber se você poderia me deixar em paz.

I’m terribly sorry to bother you but I wonder if you would kindly give me some assistance with my studies = sinto muitíssimo incomodá-lo mas gostaria de saber se você teria a gentileza de me auxiliar com meus estudos.

Drop dead! Go play in traffic! Get lost! = suma daqui!

Leia mais sobre a importância de diferenciarmos linguagem formal e informal em Valeu, brôu!

*Cristina Ustárroz é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A. Ela escreve mensalmente para o BlogA.

 

 

Curiosidade: administração educacional

0 13 abril 2015 | 18:47

A administração escolar é um segmento bastante particular da área administrativa. Por um lado, assemelha-se à administração empresarial no que tange à gestão de recursos materiais, financeiros e físicos da instituição. Mas, ao contrário de uma empresa comum, trabalha com produtos intangíveis, que são é a educação e o aprendizado dos alunos. Para chegar a resultados satisfatórios, é essencial desenvolver as capacidades humanas dentro da escola, integrando gestores, professores, alunos e a comunidade na qual a instituição está inserida.

“O relacionamento com professores e alunos é célula fundamental da atuação do administrador educacional”, afirma Márcia Rosiello Zenker, psicóloga e educadora e revisora técnica do livro Administração educacional - Teoria, pesquisa e prática. Isso não significa, necessariamente, saber o nome de todos os alunos, por exemplo, tarefa que pode ser impossível em uma grande instituição. Mas se traduz na adoção de estratégias de empoderamento da equipe docente, incentivando sua participação na tomada de decisões, e na gestão das pessoas que participam da comunidade escolar.

O Brasil enfrenta desafios próprios na educação. Especialmente em escolas públicas, o país ainda encontra problemas de infraestrutura básica em algumas regiões, como falta de energia e ausência de biblioteca e laboratórios. Zenker ainda aponta a má formação de professores, ou a falta de professores das áreas de exatas, como pontos que precisam de melhorias. A psicóloga ainda cita a violência dentro do ambiente escolar como um problema nacional a ser superado.

Em termos fundamentais, a gestão escolar é uma extensão da empresarial, “no sentido de seus fundamentos serem dados pelas teorias organizacionais nas quais se baseiam as empresas de um modo geral”, explica Zenker. O cerne técnico da administração educacional é o processo de ensino-aprendizagem, um processo complexo e que depende de múltiplos agentes. Nessa relação, segundo de Wayne K. Hoy, um dos autores de Administração educacional, quanto maior os níveis de confiança dos colaboradores com relação aos alunos e pais, melhores serão os resultados na aprendizagem.


Gestores e docentes devem pensar juntos nos desafios da instituição
[FONTE: Kelsey Ryane

Uma tática para essa área da administração é aplicar a perspectiva de sistemas. Segundo Zenker, essa é uma maneira de dar conta da complexidade da gestão educacional, abordando a instituição como um sistema social. Conectando estrutura, indivíduo, cultura e clima organizacionais, poder e política, o gestor poderá colocar todos esses planos a serviço do cerne técnico da escola: o processo ensino-aprendizagem. “A escola vista com olhos sistêmicos tem maior chance de ampliar a percepção do gestor para tomada de decisões estratégicas”, conclui Zenker.

Nesse cenário, fica evidente que o trabalho do gestor não é solitário. Ele precisa do envolvimento de pais e professores, e serão os resultados da atuação do corpo docente que poderão servir de autoavaliação para o gestor. Se ele está desempenhando seu papel com eficácia, o processo ensino-aprendizagem ocorrerá com sucesso. Por isso, é fundamental escutar o professor, que vive a sala de aula diariamente. A partir daí, será possível manter e inovar a administração educacional.

Você viu? SUS passa a tratar transtorno bipolar

0 10 abril 2015 | 12:03

Há alguma semanas, o Governo Federal anunciou que o Sistema Único de Saúde passará a tratar o transtorno bipolar (TB), por meio da publicação de um protocolo de diretrizes para o diagnóstico e a disponibilização de cinco medicamentos utilizados no tratamento da doença. Estima-se que, apenas esse ano, as novas medidas irão atingir cerca de 270 mil brasileiros afetados pelo transtorno. O número não é pequeno, mas você sabe o que é, afinal, bipolaridade? O psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, um dos autores de Aprendendo a conviver com o transtorno bipolar, da Artmed Editora, explica: essa é uma doença de humor que envolve crises de depressão e de euforia ao longo da vida. No entanto, muitas vezes as pessoas acreditam que alterações agudas de humor durante o dia caracterizam a doença, ou a confundem com depressão, estigmatizando esse transtorno. As coisas, porém, não são bem assim.

A obra aborda as perguntas frequentes feitas por pessoas que têm o transtorno e por seus cuidadores. Danielle Soares Bio, neuropsicóloga e também coautora, explica que as mudanças de humor são comuns no nosso cotidiano, em que enfrentamos tristeza, alegria, raiva, irritação e outros sentimentos que dão tonalidade à nossa vida afetiva. Esse quadro, sozinho, não caracteriza bipolaridade, pois são mudanças de curta duração e não afetam a vida do indivíduo saudável, que pode modular seu estado de humor, saindo do estado basal da tristeza para sentir bem estar. No caso do TB, há a presença de vários sintomas e os episódios das duas fases do transtorno, depressão e mania, duram, respectivamente, cerca de 15 dias e de 4 a 7 dias. As mudanças no comportamento do indivíduo são duramente sentidas por ele e pelas pessoas com quem convive, deixando marcas que envolvem não apenas sua condição psicológica, mas também financeira e em sua reputação, além de prejudicar sua vida afetiva. Danielle salienta, ainda, que esses episódios podem vir a durar meses, mas, com o tratamento adequado, eles se tornam menos frequentes e, quando acontecem, menos duradouros. Ricardo Moreno completa dizendo que a fase da depressão costuma ser mais longa que a mania quando sem tratamento, e apresenta risco de morbidade. 

A diferença entre as duas fases do transtorno é enorme. Antigamente, relembra Ricardo Moreno, era chamada de psicose maníaco-depressiva, como referência aos dois estados de humor. A fase depressiva é muito semelhante ao estado apresentado pelo paciente diagnosticado com transtorno depressivo, que é mais recorrente que o TB, tais como humor deprimido, incapacidade de sentir prazer nas atividades do dia a dia, sentimento de vazio ou tristeza, fadiga e dificuldade de concentração. No entanto, a fase depressiva do TB tem suas peculiaridades, como a hipersonia (excesso de sono) e o aumento da fome e, por conseguinte, do peso do paciente. O indivíduo que tem depressão pode ser tratado apenas com antidepressivos, o que não é indicado para o paciente com bipolaridade, que deve fazer uso de estabilizadores de humor. Afinal, os antidepressivos podem desencadear o outro estado do transtorno bipolar: a mania.  

Na fase da mania, o paciente apresenta um comportamento impulsivo e expansivo, além de grande irritação, aceleração dos pensamentos e aumento da energia. Nesse estado, o indivíduo pode apresentar frieza, arrogância, autoestima aumentada, egocentrismo e impaciência, tornando exageradamente otimista e assumindo riscos para sua saúde. Torna-se extremamente desinibido, podendo exibir-se socialmente de forma inadequada. Há o impulso para o consumo de drogas e para o sexo, bem como para os esportes radicais. O paciente não tem senso crítico sobre sua condição e acaba se tornando pouco funcional, inconveniente e provocativo, voltado apenas para saciar suas necessidades de liberdade, contato físico e brigas, por exemplo. Pode, ainda, começar a jogar ou consumir muito, ainda que não tenha condições financeiras para tal.  Existe também uma fase denominada hipomania, com sintomas mais brandos de mania, e que a substitui no TB tipo II, diferenciando-o do tipo I. No total, existem sete tipos de transtorno bipolar catalogados, definidos pela forma como os estados se apresentam ou pela origem do problema.


O paciente bipolar alterna entre as fases de mania e depressão. 
[FONTE:Espaço Holos]

As pessoas que apresentam sintomas de transtorno bipolar, assim como ocorre com outros transtornos de humor, costumam ser estigmatizadas. Para Danielle Bio, isso é fruto do medo do desconhecido e da desinformação. De acordo com ela, um estudo da Federação Mundial de Saúde Mental revelou que cerca de 71% dos pacientes sentem que não devem revelar sua doença para as outras pessoas, para não serem julgados. Ela ainda afirma que outro estudo, realizado por seu grupo de pesquisa na Universidade de São Paulo revelou que existem muitas crenças errôneas sobre a doença, que variam desde acreditar que esse é um problema meramente psicológico até a crer que a cura é possível, passando pelo temor de a medicação causar dependência ou prejudicar o indivíduo. Existe uma estimativa de 1% da prevalência de TB na população, considerando suas formas clínicas, mas uma estimativa de até 8%, se considerados todos os espectros da doença. Ou seja, muitas pessoas enfrentam o transtorno, como reforça Ricardo Moreno, e precisam de acompanhamento médico, a fim de evitar suas perdas sociais e afetivas. 

O oferecimento de tratamento para TB pelo SUS, portanto, indica uma nova fase, em que a doença pode perder o estigma causado pela falta de informação, tornando-se, no imaginário popular, finalmente um transtorno que não tem apenas fundo emocional. Assim como a diabetes, a hipertensão e algumas cardiopatias, o transtorno bipolar é uma doença crônica ainda sem cura, e seus sintomas devem ser tratados com a medicação adequada e, acima de tudo, com seriedade. 

 

 

Ficha técnica: Lições da sala de aula virtual

0 9 abril 2015 | 12:24

O ensino online nasceu como uma espécie de virtualização das aulas tradicionais. Mas, hoje, com o avanço das tecnologias e os estudos aprofundados na área, a educação a distância ganhou cara e personalidade próprias. Não restam dúvidas de que o futuro do ensino será marcado por ferramentas online, por isso, vamos apresentar o livro Lições da sala de aula virtual. Uma obra que reflete sobre os desafios que os professores enfrentam hoje, bem como sobre as transformações recentes no ensino.

Escrito por Rena M. Palloff e Keith Pratt, o livro traz exemplos reais e dicas baseadas em cursos online analisados. A revisão técnica ficou a cargo de Régis Tractenberg, psicólogo e mestre em Telemática Aplicada à Educação e Treinamento, sócio da Livre Docência Tecnologia Educacional. Conversamos com ele sobre o assunto e um dos primeiros pontos básicos a serem esclarecidos no debate sobre essas novas modalidades é que há diversos tipos de cursos, mas o importante é se adaptar ao perfil do aluno.

“Há cursos online cuja didática é essencialmente transmissiva, como por exemplo, aqueles compostos essencialmente por uma sequência de vídeos que devem ser assistidos pelo aprendiz. Existem outros em que os participantes são acompanhados por monitores que entram em contato para lembrá-los e motivá-los quanto à realização dos estudos e entrega de trabalhos. Vale considerar que esse tipo de acompanhamento raramente existe em cursos presenciais para adultos”, aponta Régis ao comentar sobre os papeis passivo e ativo do aprendiz, o que depende muito mais do projeto pedagógico do curso do que de sua plataforma.

Seja no ensino a distância ou no presencial, os alunos devem aprender por meio de resolução de problemas, desafios não estruturados, trabalhos em grupos etc. Se por um lado essa postura pode exigir mais esforço, por outro, também leva a resultados mais duradouros e significativos. Mesmo assim, Régis reconhece que é fácil desistir de cursos online. “Quando o investimento pessoal é menor, as pessoas tendem a persistir menos se não estão satisfeitas”, explica. Sendo assim, para segurar o estudante, é essencial oferecer alta qualidade, o que depende de capacitação dos docentes e dos núcleos de produção em metodologia e design instrucional online.

As questões e preocupações administrativas que concernem ao gestor - como a capacitação docente - também são abordadas no livro Lições da sala de aula virtual em capítulo próprio, uma vez que as instituições também precisam estar preparadas para os novos tempos. No atual cenário brasileiro, o número de alunos deve crescer conforme haja mais acesso à internet e conforme se reduzam os preços de equipamentos eletrônicos. A inclusão digital já é ampla em cidades grandes e médias, mas ainda falta chegar às cidades pequenas, onde ainda há um novo mercado a ser explorado.


Aprender na tela do computador já não é novidade
[FONTE: Umass Lowell

A crescente oferta de cursos e vagas é um grande sucesso da educação online. Como diz Régis, “são milhões de pessoas que dificilmente frequentariam a modalidade presencial, mas têm na EAD a oportunidade de se formar”. O especialista ainda cita os casos de professores que criam seus próprios cursos online, uma situação tornada possível pelas novas tecnologias. A chamada docência online independente está fora do sistema formal e atende às necessidades de liberdade pedagógica e flexibilidade.

Os meios informais de aprendizagem, aliás, estão em alta. Régis narra um causo recente: “amiga contou, orgulhosa, que sua mãe, que nunca havia usado computadores, depois que ganhou tablet de presente, passou a fazer pesquisas e a compartilhar materiais sobre crochê com suas amigas em um grupo do WhatsApp”. Os novos espaços de interação também possibilitam meios de aprendizagem, muitas vezes independentes.

Quanto à resistência que a educação online ainda encontra em alguns educadores, Régis não se preocupa. Para ele, o tempo vai provar que os cursos online são tão bons quanto os presenciais. Nas últimas realizações do ENADE, por exemplo, os alunos formados em cursos a distância tiveram desempenho tão bom quanto os alunos de cursos presenciais. E, em algumas formações, seus resultados foram melhores. Ou seja, “a tendência é que esses preconceitos sejam substituídos pela experiência e familiaridade com novas formas de interação e aprendizagem”. O futuro bate à porta e vem chegando.

Perfil: Yves de La Taille

0 6 abril 2015 | 18:51

O nome logo entrega a origem francesa de Yves de La Taille, psicólogo que, desde a década de 1980, se dedica ao campo da psicologia moral, ciência que investiga os processos mentais que levam alguém a obedecer ou não regras e valores. Naturalizado brasileiro, La Taille é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sendo considerado uma verdadeira referência na área do desenvolvimento moral. Pelo Grupo A, o especialista, que refuta o título de educador, pois prefere reservar o título “a quem realmente põe a mão na massa da sala de aula”, tem alguns livros publicados, entre eles Crise de valores ou valores em crise, Formação ética e Moral e ética. Em uma conversa com o BlogA, o psicólogo conta mais sobre seu envolvimento com a questão moral, a distância da França e também suas impressões sobre o Brasil e de que forma o país pode evoluir no que diz respeito a Educação. 

Quando surgiu o interesse pela temática da moral?

Meu interesse pela temática da moral nasceu durante o curso de graduação de Psicologia. Aconteceu o seguinte: fiquei encantado pela área de Psicologia do Desenvolvimento, notadamente por intermédio da teoria de Jean Piaget. A partir daí, minhas atividades, enquanto aluno, se dividiram em duas: por um lado, cursar as disciplinas necessárias à obtenção do diploma e, de outro, à noite, depois de minhas aulas na Aliança Francesa, estudar livros de Piaget. Um deles caiu nas minhas mãos: Juízo moral na criança. Quando acabei de ler, sabia que havia acabado de descobrir o tema ao qual me dedicaria doravante.


Yves de La Taille é Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

Quais são as maiores diferenças que o senhor enxerga entre os métodos pedagógicos de seu país de origem e o Brasil? 

Sinceramente, eu não penso que se possa dizer que exista um método pedagógico que represente o Brasil. Aqui, ainda convivem práticas antigas e modernas. Embora eu esteja defasado do que se faz na França hoje, pois faz tempo que deixei os bancos escolares daquele país, pelo que eu sei, o ensino na França ainda é bastante tradicional, em parte porque não tanto sujeito a “modas” como é o caso do Brasil, mas também porque é muito conservador e corporativista. O Brasil é mais aberto a inovações, e isso é bom. Mas eu apontaria duas diferenças, não relacionadas a método, mas à estrutura da educação. 

A primeira é o fato de o período na França ser integral. Isso falta no Brasil. Não se trata tanto de carga horária, mas de como ela é distribuída no tempo. É muito bom um aluno poder permanecer o dia inteiro na escola, e é também excelente para o professor que se dedica apenas a uma escola. A segunda é o programa do Ensino Médio. No Brasil, ele é “generalista”, com a abolição dos antigos “científico” e “clássico”’. Na França, permanecem classes de Ensino Médio com ênfase numa orientação ou em outra, e penso que isso é melhor. Fiquei sinceramente com pena vendo meus filhos serem obrigados a engolir biologia, física, química, sociologia, literatura e etc, sem nada poder priorizar e, eu diria até, “respirar”.

A formação ética deve contar com uma disciplina própria, como era o caso das disciplinas de moral e cívica de antigamente, ou é uma prática que deve ser difundida no dia a dia da escola?

Uma disciplina, que pode até ser chamada de Moral e Cívica, pode ser útil para trazer conhecimentos sobre o que a humanidade tem refletido sobre os dois temas, assim como é útil uma disciplina de Sociologia para passar aos alunos noções sobre o referido objeto de conhecimento. No caso de uma disciplina sobre moral e civismo, o currículo desta deveria ser estritamente definido para evitar que o professor responsável tome a liberdade de dar o “seu” ponto de vista particular sobre valores. Porém, o problema é que tal disciplina não pode assumir o nome de “educação”, como se quis fazer acreditar anos e anos atrás no Brasil e alhures. Uma educação moral e uma formação ética, que mereçam esses nomes dependem de uma prática difundida no dia a dia da escola, pois de nada adiantarão belos discursos sobre o bem e o mal, sobre a vida, se não houver, na prática, uma autêntica vida moral na escola. O cuidado com a qualidade ética do convívio escolar é fundamental, mas, como se sabe, ele tem sido negligenciado, como o atestam as incessantes queixas sobre bullying. Há também como proposta interessante a chamada transversalidade, que implica que os temas morais e éticos sejam tratados ao longo da escolaridade em várias disciplinas, cada qual guardando sua especificidade.

O senhor afirma que a proposta de temas transversais na escola não funcionou no Brasil. Por quê?

A proposta não funcionou porque nem chegou a ser realmente implementada. No final da década de 1990, o governo de então lançou um programa chamado, se não me falha a memória, Parâmetros em Ação. Visava a formar professores para aplicar as propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNS), que incluíam os chamados temas transversais. Porém, como é praticamente regra no Brasil, o governo seguinte não deu sequência a esse trabalho de formação e os PCNS foram colocados para escanteio, sem que nada fosse colocado no lugar. Por outro lado, a transversalidade, embora proposta inteligente e generosa, não costuma ser institucionalmente seguida. Fiz parte de júri para avaliar propostas em torno dos temas transversais como saúde, ética, educação sexual e etc. Mas a grande maioria padecia de uma grave limitação: eram propostas de um professor isolado, portanto, não mobilizavam a instituição como um todo, necessária à genuína transversalidade. Em um dos meus livros, lembro que a ideia da transversalidade data, no mínimo, do começo do século XX e, a seu respeito, Piaget já dizia que “cada professor, centrado na sua própria disciplina, acaba por adiar o cuidado de explicitar seu sentido humano e o ano passa sem que haja discussões morais”. Tal adiamento já dura um século.

Quais políticas de governo o senhor apontaria como essenciais para obter melhorias na educação do País?

 Não creio ter as credenciais necessárias para responder a uma pergunta tão ampla, mas limito-me, portanto, a sublinhar dois pontos que já comentei: ensino em tempo integral e um programa de Ensino Médio menos “sufocante”. Acrescentaria apenas mais um: colocar no comando do Ministério da Educação (MEC) um educador, e permitir que este permaneça um mandato inteiro em seu cargo. Mas não é o que tem acontecido. Um vai lá, e depois resolve ser prefeito. Outro passa por lá para depois mudar para outro ministério mais atraente. Outro não chega a completar três meses no cargo. E assim por diante. Que se confie o MEC a um educador que conhece ‘por dentro’ os problemas e as virtudes da educação. E, de preferência, que ele não se ache na obrigação de vestir o uniforme ministerial, com paletó e gravata. Que arregace as mangas.

Qual a diferença entre estabelecer regras e oferecer uma formação ética aos estudantes?

Em primeiro lugar, aceitemos a seguinte definição de ética, de autoria de Paul Ricoeur, diferente da habitual que se confunde com a moral: “vida boa”, para e com outrem, em instituições justas. Nesta definição, ética remete à dimensão de uma vida boa, ou seja, de uma vida que vale a pena ser vivida, mas somente merece o nome de ética uma “vida boa” regulada pela moral, daí a referência ao outro: para o outro implica generosidade, com o outro implica igualdade e cooperação e instituições justas implicam tanto a dimensão da justiça quanto da política. Isto posto, fiquemos com a dimensão moral. A moral é feita de princípios dos quais se derivam regras. Do ponto de vista do desenvolvimento psicológico, o primeiro contato da criança se dá com as regras, mas, se bem sucedido, caminhará em direção aos princípios. Logo, oferecer uma formação ética vai muito além da imposição de regras, pois envolve a razão de ser destas regras, ou seja, seus princípios, e a perspectiva de uma “vida boa” implicam investimentos existenciais.


Yves de La Taille tem três títulos publicados pelo Grupo A.

Entre adolescentes, a desobediência e o teste de limites são traços naturais. Como separar o que é desobediência e o que é desrespeito?

A desobediência se refere à transgressão voluntária a regras, por exemplo, não chegar na hora à escola, ou a ordens de alguma autoridade, como não responder ao professor que interroga um aluno. Note-se que a desobediência pode ser perfeitamente legítima. Um aluno pode decidir não responder às perguntas de um professor que claramente o trata com injustiça. Desrespeito se refere ao tratamento que se dá a alguém, tratamento este que lhe nega a dignidade, como, por exemplo, a humilhação. Estamos aqui no campo da moral. Para finalizar, lembremos que a desobediência não implica desrespeito em relação à pessoa desobedecida. Um aluno pode desobedecer às ordens de um professor, e mesmo assim tratá-lo com civilidade.

O aluno que age com desrespeito na sala de aula, o faz sabendo do fato ou geralmente já legitimou internamente seus próprios valores não condizentes com o ambiente?

Pode haver atos de desrespeito por assim dizer inconscientes. Dou um exemplo de minha prática. Vejo um aluno dormindo durante a minha aula e, depois de acordá-lo, digo que dormir implica agir como se a pessoa que está dando aula não existisse, o que é uma forma de desrespeito. Ora, frequentemente o aluno concorda comigo, pede desculpa, pois, na prática, nunca havia refletido sobre a dimensão de desrespeito implicada no simples ato de dormir durante a aula. Porém, é claro, pode haver atos intencionais de desrespeito para com o professor e para com colegas. O problema agora está no senso moral, evoluído ou não, da pessoa desrespeitosa. Atos desrespeitosos são, infelizmente, bastante frequentes. Mas, também, pudera, a escola não tem cuidado nem da educação moral, nem da formação ética.


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