BlogA entrevista: Luciene Machado

5 25 fevereiro 2015 | 16:04

Destinado aos mais variados profissionais da moda, o livro Ilustrações de moda: do conceito à criação traz uma abordagem passo a passo do desenho de peças de roupas. Escrita por Steven Stipelman, a obra apresenta mais de mil ilustrações coloridas feitas pelo próprio autor, professor da Fashion Institute of Technology e ex-ilustrador da Henri Bendel e da Womens Wear Daily. O material ainda é acompanhado por um DVD no qual Stipelman demonstra diversas técnicas de representação, fazendo deste título um excelente guia para profissionais experientes e estudantes.

Traduzido por Luciene Machado, o livro parte da identificação dos elementos das vestimentas, aborda as técnicas básicas e até as mais complexas. O autor ainda se aprofunda em conceitos avançados, como a manipulação da figura de moda, o desenho de peças drapeadas e a criação de desenhos planos, sem deixar de lado a história da moda. A revisora técnica é mestre em Design pela Unisinos, especialista em Moda pela ESAMC-SP e professora de Design e Design de Moda da ESPM-Sul, com quem conversamos a respeito da obra de Stipelman e sobre as características das ilustrações de moda.

O livro Ilustração de moda foi escrito por um norte-americano, mas sabemos que a moda é bastante globalizada. Como os conceitos e ideias de ilustração de outras partes do mundo podem ajudar os profissionais brasileiros?

Os conceitos e ideias sobre ilustração de moda partem de um mesmo princípio: o de representar de modo mais fiel possível a criação de uma peça ou peças de roupa, sendo vestidas em um manequim de moda, através do desenho ilustrado e em cores. Esta representação inclui mostrar o caimento do tecido, além de outras características como transparências, texturas de superfície, estampas, brilho, tudo por meio da técnica de luz e sombra combinada com o uso adequado das cores. Isso auxilia os profissionais para uma melhor compreensão e visualização das ideias do criador de moda, quando as transfere para o papel, em forma de desenho ilustrado.

Qual a contribuição da obra para o cenário da profissionalização da produção de moda no Brasil?

A obra tem grande contribuição, no sentido de mostrar um passo a passo de modo bem didático e fácil de seguir, mostrando a construção, a ilustração e a representação de ideias através do desenho de moda. Traz algumas referências de peças ícones, como alguns tipos de casacos, em que há uma descrição bem detalhada das partes que compõem a peça, de acordo com a moda da época. Traz não só a representação do corpo feminino e suas proporções (que é a mais comum de se encontrar em outras obras deste tipo), mas também a dos corpos masculino e infantil de forma bastante detalhada, além de representações de diversos estilos. Também há um enfoque em como desenhar acessórios, desenho técnico das peças, breve histórico das silhuetas, representação detalhada de algumas características de tipos distintos de tecidos e estampas. É uma obra bastante completa.


[Reprodução]

A história da moda também é abordada pela obra, qual a importância, para o futuro profissional da área, de adquirir esse conhecimento?

Sem o conhecimento do passado, não se pode projetar inovações no futuro. Portanto, a abordagem da história da moda torna-se um elemento fundamental para complementar a ilustração de moda, em que se pode observar as diferentes silhuetas, comprimentos, e estilos das roupas. Alguns usamos ainda hoje e retornam sempre como tendências redesenhadas para nossa época. A moda é um ciclo, no qual tendências passadas sempre voltam com um toque de modernidade, sem deixar de ter um ar de retrô ou nostálgico. Daí a importância da história. É uma busca de referências para novas criações.

Ilustração de moda vem acompanhado de um DVD. O que o leitor pode esperar desse material e como melhor utilizá-lo?

O DVD ilustra de modo também didático e complementa todo o passo a passo descrito de como fazer os desenhos. Está separado por assuntos em formato de videoaulas curtas e inspiradoras. Pode-se ver o DVD após a leitura do assunto relacionado para obter uma melhor compreensão de como fazer. Os vídeos mostram o processo e a técnica de desenho do próprio autor, bem como, outros materiais alternativos que podem ser utilizados para ilustrar um desenho, além do lápis de cor.

Qual a importância da ilustração para a moda? Quais são as principais técnicas?

A ilustração é muito importante para poder transmitir a ideia de uma peça ou look de moda criados, assim como para vender essa ideia. Também é importante no desenvolvimento de coleção de moda, a qual é a ferramenta de representação bidimensional utilizada para expor as ideias do estilista ou designer de moda. Na criação de uma coleção, é a partir da ilustração dos desenhos (denominados de desenhos de estilo ou croquis) que são realizados os desenhos técnicos da peça, com sua descrição em uma ficha técnica. Em seguida, vem o desenvolvimento dos moldes, na sequência, a confecção da peça piloto e, posteriormente, a produção em larga escala. Deste modo, a ilustração é o ponto de partida para representar as ideias para uma coleção. Dentre as técnicas de ilustração, pode-se usar materiais distintos, como grafite (em P&B), lápis de cor comum ou aquarelável, canetas hidrocor, tinta guache, entre outros materiais, além de trabalhar com luz e sombra dando uma sensação mais realista para o desenho, ou então, em cores sólidas com aspecto de quadrinhos.

Qual o conceito de representação dentro das técnicas de ilustração de moda?

O conceito de representação é visualizar uma ideia, fazer ver a ideia, por meio da ilustração de moda, tornando tangível o produto de moda criado (as roupas, acessórios). A representação pode ser mais artística, quando se tem um desenho bem próximo a uma foto, mostrando as características físicas do manequim de moda de forma detalhada, com expressões na face, movimento dos cabelos, do corpo, a pose, o andar, o movimento da roupa... Ou pode ser de forma estilizada, onde o enfoque são os detalhes da roupa e não muito no corpo do manequim de moda, o qual pode mostrar apenas linhas básicas de contorno. Tais tipos de representação estão ilustrados no livro.  

O livro Ilustração de moda já está em sua terceira edição e é um dos mais importantes guias para os profissionais que desejam trabalhar com desenho de peças de roupas. A obra é um título do selo Bookman e um dos manuais mais bem conceituados da área.

Inspiração: o real desenhado

15 7 julho 2014 | 14:37

Desde os tempos em que habitava as cavernas, o homem tenta representar seus pares e tudo que o cerca. E, ainda que recebam a alcunha de arte rupestre, temos que ser sinceros e dizer que nem sempre aqueles rabiscos encontrados em algumas formações rochosas se diferenciam de simples desenhos de crianças. Mas críticas de arte e brincadeiras à parte, a verdade é que retratar o mundo com a sua vitalidade não é fácil e tampouco é tarefa para muitos. 

Os poucos artistas que, com suas mãos e, ok, talvez um pouco de tecnologia, conseguem representar pessoas e objetos não só fazem bonito como nos inspiram com sua capacidade de colocar no papel aquilo que vêem, com todos seus detalhes e imperfeições. E se parece difícil colocar o mundo na folha em branco, o que se pode falar das animações, que combinam o analógico do desenho com o digital do cinema atual? Mesmo na era da computação gráfica e do aprimoramento digital, a ilustração continua a ser uma ferramenta vital na criação de sentido e de identidade na animação.

Falando em animação, já imaginou se seus personagens preferidos da telinha ganhassem tantos detalhes que se tornassem quase humanos? Foi o que fez o brasileiro Alexandre Salles com aquela turma que ninguém sabe que fim levou… A Caverna do Dragão! De acordo com o artista, que é citado pelo site MegaCurioso, ele usa técnicas de surrealismo e do fotorrealismo em seus trabalhos. E sabe tanto de desenho que chegou a fazer ilustrações para livros de Medicina, tamanha fidelidade aos detalhes. 

#1 Mestre dos Magos: se você já duvidava da bondade dele com o grupo de jovens perdidos, que se pode dizer depois dessa imagem?


[FONTE: MegaCurioso]

# 2 Diana e seu bastão parecem ainda mais perigosos do que na animação

#3 O cavalo do Vingador tem uma perna de fogo, o que está longe de ser possível na vida real, mas os músculos de ambos parecem ter sido talhados a muita malhação

Tirar personagens de desenhos animados da tela é divertido, e o resultado é, de fato, espantoso, mas navegando na internet encontramos outro artista que gosta de representar seus personagens com uma dose extra de realismo: a própria realidade. Mas como assim? Nós explicamos: o que Joel Daniel Phillips, de São Francisco, nos Estados Unidos, faz é usar seu talento para chamar atenção para indivíduos que diariamente são ignorados pela população. A diferença é que, ao invés da fotografia, Joel usa a ilustração e seus traços extremamente realistas para capturar um pouco das histórias talhadas nos rostos de indigentes que vivem nas ruas. E, o mais legal disso tudo: ele desenha com carvão.

#1 O homem e sua bicicleta


[FONTE: IdeaFixa]

#2 Quase dá para cheirar a fumaça do cigarro daqui

#3 A luz bate em seu rosto e o homem franze a testa

E, para finalizar a inspiração de hoje, um vídeo em timelapse do trabalha do italiano Marcello Barenghi, um designer gráfico que faz desenhos com grafite, lápis de cor e airbrush, também chamado de aerógrafo, instrumento utilizado para fazer pinturas com ajuda do ar que pode vir de um compressor ou de uma lata, como no caso dos sprays utilizados no grafite. Os trabalhos de Marcello, como ele mesmo diz, são cópias da vida, de outras de imagens e resultado da sua própria interpretação ou invenções da sua cabeça. 

 

Inspiração #75: Desenhos animados em campanha!

0 2 dezembro 2013 | 18:10

Já faz tempo que desenho animado não é só coisa de criança. Basta ir a uma sessão de cinema de animação: tem muito adulto que nem precisa mais da desculpa que está só levando o sobrinho para ver o filme. Quem cresceu com desenhos, tem eles como parte da sua formação e de seu imaginário. Então nada mais natural que a criação artística contemporânea também use desenhos como matéria-prima.


Rosa Parks na versão princesa.
[FONTE: Divulgação]

Um dos mais recentes e contundentes exemplos disso foi o do desenhista David Trumble, que transformou grandes ícones femininos em princesas da Disney. Acima, está Rosa Parks, a mulher que se transformou em símbolo da luta negra ao se recusar a ceder seu lugar em um ônibus a um homem branco. E aqui embaixo você vê como seria Hilary Clinton se fosse estilizada para os padrões Disney.


Padrões de princesa: cinturinha e muito glitter.
[FONTE: Divulgação]

Qual o sentido de tudo isso? A gente também demorou a entender, e esse estranhamento faz parte do objetivo de Trumble. Segundo o próprio, ele quis mostrar que não faz sentido colocar essas grandes mulheres reais no modelo limitado de princesinha. E se essa normatização não serve para elas, também não deveria servir para as personagens fictícias.


Anne Franke se tornaria a “princesa do holocausto”.
[FONTE: Divulgação]


Marie Curie, nobel de Física e princesa.
[FONTE: Divulgação]

O artista defende que os desenhos animados deveriam englobar modelos mais variados de mulheres, indo além do arquétipo de princesa. Preocupado com a percepção das crianças, Trumble não acha errado que as princesas existam, mas elas não poderiam ser a única opção de modelo feminino para quem está sem formação hoje. Nós estamos com Trumble na defesa da pluralidade, e você?


Até a pequena paquistanesa Malala entrou na roda do estilo Disney
[FONTE: Divulgação]

Além de servir para contestação de padrões, os desenhos animados também podem se engajar em lutas importantes de outra maneira. No Brasil, um grande grupo de personagens ficou careca para apoiar as crianças que lutam contra o câncer. A campanha é um lembrete especialmente dirigido aos pais: crianças com câncer devem curtir a infância tanto quanto qualquer outra.


Ele odeia segunda-feira, mas tinha que estar no post de hoje.
[FONTE: Carequinhas]

Personagens brasileiros e estrangeiros perderam os cabelos durante a campanha. As crianças da turma da Mônica foram as primeiros a raspar a cabeça, mas na sequência até o gato Garfield e a Galinha Pintadinha entraram na luta. Um jeito singelo e divertido de mostrar que ainda é possível sorrir :)


A galinha pintadinha substituiu as penas por uma bandana.
[FONTE: Carequinhas]

Gostou dos desenhos animados engajados? Quer fazer o seu próprio? O livro Animação Básica: Desenho para Animação é um guia totalmente ilustrado da técnica do desenho no contexto da criação de filmes animados. Belos exemplos do premiado trabalho de Joanna Quinn e Les Mills ajudam a explorar esta arte em todas as suas aplicações. Uma obra imperdível para quem pretende se especializar nesse universo.

Inspiração #70: Lápis versus Câmera

1 21 outubro 2013 | 15:36

Toda vez que fotografamos algo, estamos fazendo um recorte da realidade. Por mais que não seja proposital, acabamos editando a existência ao escolher o que entra na composição e o que fica de fora; o instante que será eternizado e o que permanecerá efêmero. Essa intervenção na realidade também pode ser intencional, feita no momento da concepção da fotografia. E, se esse papo parece complexo demais, vamos simplificar e trazer para o cotidiano: quem nunca tentou tirar uma foto segurando a lua com a ponta dos dedos, com um amigo na palma das mãos ou (essa é para os viajantes) sustentando a Torre de Pisa? Agora tudo fez sentido, né? A fotografia fantástica, ela existe, se a gente quiser.


Nosso artista-inspiração da semana, Ben Heine, também interfere na paisagem de forma bem humorada.

Partindo do conceito da interferência na realidade, o artista belga Ben Heine é autor de uma série de fotografias que propõem a intervenção da imaginação na paisagem, representada por meio de desenhos. A série Pencil vs. Camera, um de seus trabalhos mais famosos, traz fotografias aparentemente simples, mas com um toque de surrealismo. Os desenhos divertidos têm como principal temática a amizade e o amor. Segundo o próprio Ben, ele faz arte para as pessoas, e quer que, ao contemplar suas obras, elas sonhem e esqueçam seus problemas do cotidiano. E é isso que faremos agora. ;)


Dos quatro apoios à fotografia.


"Chega de rotina!", diz a mensagem na pasta do macaco burocrata. Fica a dica para a semana que se inicia.


Uma multidão de sorrisos.


Alguém precisando de parceria para uns drinks?


Esta imagem está a um passo de efetivamente começar a verbalizar para nos contar uma história.


Aqui é a realidade interferindo na imaginação, não é?


Se essa imagem não aqueceu seu coraçãozinho, sua segunda-feira não tem mais salvação.

Todas as imagens que ilustram esse post foram retiradas do website do artista, no qual se encontram todos os seus trabalhos. Vale a pena uma visita! E, para finalizar, não poderíamos deixar de indicar algumas leituras: para os construtores da realidade, Desenho em Cores é uma obra clássica sobre técnica de projetos para arquitetos, designers e paisagistas. Já para os editores do dia a dia, indicamos O Olho do Fotógrafo, que trata da habilidade de enxergar potencial para uma boa imagem, bem como organizar os elementos gráficos para criar uma composição atraente. Aliás, o autor é Michael Freeman, mestre da fotografia, e tem várias outras obras muito bacanas publicadas pela Bookman Editora. É só conferir aqui. :)

Inspiração da semana #18: A cura de Bobby Baker

1 10 janeiro 2012 | 14:58

Em 1996, a artista Bobby Baker foi diagnosticada com personalidade borderline. Pouco tempo depois, descobriu que tinha um câncer de mama. A solução para enfrentar o intenso desgaste físico e mental que a acometeu durante onze anos foi registrar, em um diário ilustrado, seu processo de cura. Ao todo, foram 711 desenhos – divertidos, emocionantes, inusitados, reveladores – que registram as diferentes fases do seu tratamento. Desses, ela optou por compartilhar 158, publicados em um livro no exterior. Confira algumas das suas surpreendentes obras:

Dia 303: registro de sua sessão de terapia em grupo.

Dia 320: chorando na aula de yoga.

Dia 397: os efeitos da medicação.

Dia 526: o pássaro colorido representa a esperança.

Dia 698: recuperação da quimioterapia.

Bobby Baker fala sobre seus desenhos nesta matéria do jornal britânico The Guardian.

Via.

Sobre o transtorno borderline, a Artmed Editora lançou os livros Transtornos da Personalidade, Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline e Vencendo o Transtorno da Personalidade Borderline com a Terapia Cognitivo-Comportamental.

Inspiração da semana #12: O desenhista Federico Fellini

4 31 outubro 2011 | 13:30

Há 18 anos, um dos maiores – e mais poéticos – ícones do cinema mundial, Federico Fellini, falecia. Diretor de filmes memoráveis como A Doce Vida, 8 ½, Satyricon, Amarcord e La Strada, o artista italiano influenciou de cineastas (Woody Allen e Martin Scorcese, por exemplo) a bandas (o visual dos B-52´s é retirado de suas obras). Muito já se discutiu sobre o seu incrível talento cinematográfico e sua habilidade em misturar sonho – inclusive usando a teoria de Carl Jung como fundamentação –, fantasia e desejos às suas histórias. Pouco se fala, no entanto, sobre a sua desenvoltura na área da ilustração. Fellini era um ótimo desenhista; em seu repertório constam criações a lápis e aquarela que retratam os sets de filmagens, ideias de vestimentas, atores e amigos. Na inspiração desta semana, confira uma seleção de oito desenhos de Federico:

Saiba mais sobre cinema no finalista ao Prêmio Jabuti Cinema e Loucura, de Landeira-Fernandez e Cheniaux. Dicas de ilustração você encontra em Fundamentos de Ilustração, de Zeegan.

Quer sugerir uma inspiração da semana? Escreva suas dicas nos comentários deste post!

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