Inspiração #28: Cinco psicólogos que roubam a cena

1 15 maio 2012 | 13:46

Um Método Perigoso, o mais recente filme do diretor David Cronenberg, revela a complexa relação entre a dupla mais celebrada da psicanálise, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. A psicologia não é tema estranho entre as produções de Hollywood – basta lembrar quantos filmes você já viu que retratavam personagens com transtornos de personalidade –, mas quase sempre o protagonista é o assassino. Cronenberg colocou Freud e Jung em primeiro plano, tornando o embate de ideias entre o mentor e seu discípulo o foco central da trama. Assim como o cineasta canadense, outros diretores já ousaram investir nos terapeutas como protagonistas de seus filmes. Na inspiração desta semana, confira cinco atores que roubaram a cena com seus personagens psicólogos:

#1 Robin Williams em Gênio Indomável

Premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Robin Williams é um psicólogo que recebe a difícil tarefa de domar um garoto genial, mas problemático. O filme, de 1997, é dirigido por Gus Van Sant.

#2 Bruce Willis em O Sexto Sentido

Em O Sexto Sentido, Bruce Willis vive o Dr. Malcolm Crowe, um médico especializado em psicologia infantil que tenta ajudar um menino atormentado pela visão de espíritos.

#3 Montgomery Clift em Freud: Além da Alma

Dirigido por John Houston, o filme retrata cinco anos da vida de Freud, a partir de 1885, época em que o psicólogo começou a usar a hipnose para tratar a histeria. O roteiro do filme foi escrito por ninguém menos do que Sartre, o famoso filósofo.

#4 Lew Aryes em O Espelho da Alma

Especialista em estudo de gêmeos, o Dr. Scott Elliott (Lew Aryes) decide investigar a morte de um famoso médico da sociedade. A principal suspeita é Terry Collins – ou seria sua irmã gêmea, Ruth Collins?

#4 Sydney Greenstreet em Conflitos D´Alma

Este filme preto e branco, lançado em 1945, tem como um dos personagens principais o Dr. Mark Hamilton, psicólogo que trata um casal em conflito.

Você já assistiu a outros filmes em que os psicólogos roubam a cena? Compartilhe com a gente!

Quer entender mais sobre Freud e psicologia no cinema? Confira os livros Freud: uma leitura atual, de Rosine Perelberg, e Cinema e Loucura, de J. Landeira-Fernandez e Elie Cheniaux.

As cinco lições do Abduzeedo

1 4 maio 2012 | 00:37

Fábio Sasso, autor do livro Abduzeedo: Guia de Inspiração para Designers, fez uma passagem vapt-vupt pelo Brasil este mês. Natural de Porto Alegre, hoje ele mora em na Califórnia, Estados Unidos, onde trabalha como designer sênior do Google. Fábio veio ao país participar do evento AdobeCamp, em Maceió, mas aproveitou para matar as saudades da família em sua cidade natal – onde também está localizado o QG do Grupo A.

Ao sabermos da sua visita, conseguimos, em parceria com a ESPM, organizar um lançamento a jato do seu livro para alunos de design e relações internacionais da instituição – com direito à cobertura pelo Twitter da Bookman para quem acompanhou a hashtag #FalaAbduzeedo. Durante uma hora e meia, Sasso conversou com os estudantes sobre carreira, empreendedorismo e superação de barreiras. Com seu jeito encabulado e divertido, Fábio compartilhou um pouco do que aprendeu nesses seis anos de blog e 13 de experiência com design Web. Seus insights são direcionados aos designers, mas servem de inspiração para profissionais de todas as áreas. Resumimos para vocês as cinco principais lições de vida do criador do Abduzeedo, um dos mais populares blogs de design do mundo:


Fábio autografa exemplares do seu livro para alunos da ESPM.

Lição #1: Você aprende muito mais quando ensina os outros.
Quando começou a publicar na Web tutoriais revelando suas técnicas em Photoshop [software de edição de imagens da Adobe], o pai do Fábio ficou ressabiado: “Mas guri, assim tu estás entregando o ouro aos bandidos!”. Sasso discordava; para ele, a melhor maneira de superar a concorrência era justamente ensinar os outros. Quem se fecha no seu quadrado não está disponível para aprender com os demais e para trocar experiências que podem ser definitivas no futuro.

Lição #2: Compartilhar seus trabalhos faz você ficar mais aberto a críticas e feeback.
Sim, até o Fábio tinha vergonha de apresentar seus trabalhos aos colegas na época da faculdade. Ele sempre achava que estava cru demais, que seus amigos eram muito melhores em ilustração, em finalização, em apresentação, em... Ao criar o blog Abduzeedo, ele obrigou-se a perder o medo. Valeu a pena. Mais calejado, hoje enfrenta de peito aberto todas as críticas que recebe, tanto no blog quanto no ambiente exigente do Google, e sabe usá-las a seu favor.

Lição #3: Projetos pessoais aumentam a produtividade e são a maneira mais fácil de promover o seu trabalho.
O blog era uma válvula de escape”, afirma Sasso. Ali era o local onde ele podia testar de tudo: como aplicar um efeito hipster em um logo, como criar um aspecto anos 1970 em uma fotografia atual, como fazer uma tipografia mais meiga e curvada. Os tutoriais do blog nada tinham a ver com o seu projeto profissional – que até dois anos atrás, antes do Google, era tocar uma empresa própria com seu irmão, Eduardo Sasso, e o amigo Fabiano Meneghetti, chamada Zee. Assim, ele precisava organizar e otimizar o seu tempo para garantir posts fresquinhos, o que aumentou incrivelmente sua produtividade.

No site, seu objetivo principal era aprender técnicas novas de modo descompromissado e divertido. Alguns desses experimentos, no entanto, foram levados a sério e geraram convites bacanas de trabalho. Foi por meio deles que o Fábio conseguiu freelas na Revista SuperInteressante e nas gringas Digital Arts e Wired. E, em última análise, foi pelo blog que a designer que o indicou a uma vaga no Google conheceu seu portfólio.


O primeiro trabalho de Fábio no Google: o doodle de Carnaval.

Lição #4: O importante é experimentar; faça as coisas sem medo de falhar.
Feito é melhor que perfeito." A frase é do autor norte-americano Scott Allen, mas Fábio a usa como lema pessoal. Nem sempre ele pensou assim. Quando seu irmão o incentivava a começar um blog, o primeiro pensamento que vinha à mente era: “Mas quem vai querer ler meus posts e ver o meu trabalho? Não sou melhor que os outros designers que existem por aí.” Sasso só mudou de ideia por força do destino: em 2006, o escritório da sua empresa foi roubado e, além dos equipamentos, absolutamente todos os seus arquivos – trabalhos de faculdade, projetos profissionais, códigos, layouts, tudo – foram levados. Daquele momento em diante, decidiu que deveria criar um backup público dos seus trabalhos. Em duas semanas, o Abduzeedo estava no ar. O episódio é lembrado como um marco na sua vida: antes do roubo, ele tinha vergonha de se expor; depois do roubo, notou que ele mesmo se impunha muitas barreiras e passou a se arriscar mais. Mostrou seus projetos ao público, aprendeu inglês, viajou para os Estados Unidos. Viveu muito mais.

Lição #5: Acima de tudo, divirta-se.
A recomendação, gravada no seu autógrafo no livro, é uma dica para quem, como ele, costumava se criticar demais. Relaxe. Aproveite. Divirta-se! O trabalho tem que ter uma boa dose de diversão para valer a pena.

A gente concorda, Fábio. ;-)

O livro Abduzeedo: Guia de Inspiração para Designers, foi publicado em português pela Bookman Editora no início de abril.

Inspiração #27: Cinco dicas de leitura no Dia do Trabalho

0 30 abril 2012 | 13:58

Amanhã é comemorado o Dia do Trabalho e, para os sortudos que tem feriado, nada como aproveitar o tempo livre com uma boa leitura. Inspirados pela data comemorativa, um marco na luta pelos direitos dos trabalhadores, escolhemos cinco dicas de livro para refletir sobre o tema:

Dica #1: Por que trabalhamos, do casal Ulrich

O que você busca no seu trabalho? Satisfação pessoal, realização financeira, contribuição para a sociedade? Nesta obra, David e Wendy Ulrich explicam, em dez capítulos, a razão do nosso esforço diário.

Dica #2: Responsabilidade no trabalho, de Howard Gardner


“Na maioria dos ambientes de trabalho, há alguns membros da equipe em quem se pode confiar, pois se sabe que permanecerão até o trabalho ser concluído, enquanto outros sairão assim que tiverem terminado a sua parte, independentemente do estágio em que se encontrar o projeto. Alguns estão comprometidos com o sucesso do projeto, enquanto outros se satisfazem com o seu próprio sucesso.”

Você se identificou com o trecho acima? Responsabilidade no Trabalho aponta de que maneira a cultura, a motivação e as normas profissionais podem criar ambientes de trabalho produtivos e responsáveis.

Dica #3: Sexo, Dinheiro, Felicidade e Morte, de Kets de Vries

“Uma das maiores ironias acerca do desejo é que, quando conseguimos obter aquilo que desejamos, revela-se o quão efêmero é nosso senso de satisfação. Parece que fantasiar sobre o desejo – incompleto como possa parecer – é mais atraente do que a realidade.”

Com insights perspicazes a respeito das nossas motivações essenciais de vida, o psicólogo e consultor em administração Kets de Vries expõe uma verdade por vezes oculta quando pensamos na nossa vida profissional – o fato de sermos humanos.

Dica #4: Trabalho Qualificado, de Gardner & Cols.

Como realizar um trabalho qualificado no mundo moderno, cheio de inovações incríveis a todo instante? Nesta obra, Howard Gardner, Mihaly Csikszentmihalyi e William Damon revelam a necessidade de uma formação diferenciada para o profissional de hoje.

Dica #5: Manual de Inteligência Emocional, de Reuven Bar-On e James D.A. Parker

Para conviver bem entre os colegas de trabalho, ser bom no que se faz muitas vezes não basta – é preciso um tanto de inteligência emocional para lidar com as pressões e os desafios do dia a dia. Com a contribuição de diversos profissionais da psicologia, este guia apresenta os principais conceitos e estudos da área.

Gostou das nossas dicas? Compartilhe a sua opinião com a gente! ;-)

O que a leitura significa para você?

3 23 abril 2012 | 11:40

Conhecimento. Imersão reflexiva. Sonho. Criatividade. Aprendizagem. Visão ampliada. Viagem a um universo paralelo. Bagagem cultural. Dar vida. Ressignificar. Liberdade.

Hoje, dia 23 de abril, é comemorado o Dia Mundial do Livro! Nada melhor do que começar a semana celebrando e compartilhando a nossa paixão pela palavra escrita, não é? Os termos acima foram as reações de editoras, divulgadores e designers do Grupo A a uma mesma pergunta: o que a leitura significa para você?

E para você? Compartilhe com a gente e espalhe pela Web o seu amor pelos livros! <3

Compartilhe essa imagem no seu Facebook!

Inspiração #26: 10 capas para 1 livro

4 10 abril 2012 | 14:50

A gente se apaixona por todos os livros que faz – mesmo pelos mais complexos, como já revelou por aqui o editor Alberto Schwanke –, mas há lançamentos que, por algum motivo especial, geram uma comoção maior. A chegada do Abduzeedo: Guia de Inspiração para Designers estava sendo ansiosamente aguardada aqui na editora por duas razões principais: a obra é fruto de um blog muito querido que conquistou fãs ao redor do mundo; e a capa do livro foi escolhida por meio do Prêmio Bookman de Design, nossa primeira iniciativa em inserir os leitores no processo de produção das nossas obras.

Lançado em setembro de 2011, o Prêmio Bookman recebeu 231 layouts para a capa do Abduzeedo, criados por estudantes de design, publicidade e áreas afins. Desses, os dez melhores – escolhidos pela nossa equipe e pelo Fábio Sasso, autor da obra – concorreram ao Júri Popular. Na inspiração desta semana, confira as top 10 capas do livro e o resultado final – e depois nos conte qual é a sua opção preferida!

10. Design de Rafaela Arendart.

9. Design de Mateus Schiontek.

8. Design de Marla Cruz.

7. Design de Rodrigo Muller.

6. Design de Silvio Lovato.

5. Design de Camila Martins.

4. Design de Caio Silva.

3. Design de Mauro Adriano.

2. Design de Victor Bosich, vencedor do Júri Popular.

1. Design de Diego Martins, o vencedor do Prêmio Bookman!

0. O resultado final, em duas opções: preta e cinza!

Gostou do resultado? De perto é ainda mais bonito! ;-)

O livro do Abduzeedo já está disponível no nosso site.

Em pauta: a tecnologia e os rumos da educação formal

0 4 abril 2012 | 15:32

*Por Sandra Chelmicki

“Em tempos de mudança, aqueles que aprenderem herdarão a Terra, enquanto aqueles que já aprenderam encontrar-se-ão esplendidamente equipados para lidar com um mundo que não mais existe.”
Eric Hoffer1

Reuniões de pauta costumam ser, em qualquer publicação, cenário de debates intensos e diversos. Com as reuniões mensais da BMJ Brasil (para a definição de temas da edição seguinte) não é diferente. Em um de nossos encontros, um dos participantes do conselho editorial, que também é professor de Medicina, assim como a maioria dos outros membros, questionou como os seus pares lidam com a postura dos estudantes das novas gerações, que parecem nunca prestar atenção, sempre mais preocupados com seus gadgets, celulares e afins.

Como o conhecimento pode ser retido em meio a tantas distrações: trocas de mensagens, acessos e postagens no Facebook e no Twitter? Os futuros médicos conseguirão aplicar seu aprendizado na prática clínica? Serão capazes de ouvir atentamente um paciente, condição primordial para um bom atendimento? E, por outro lado, como os professores estão enfrentando o desafio de manter a atenção desses estudantes que parecem tão dispersos e incapazes de manter a concentração e o foco? Muitos acham esse novo universo maravilhoso, certamente, mas atire o primeiro smartphone quem nunca pensou em confiscar o celular de um aluno desatento.

social media vintage foto's

Um bom ponto de partida para essas reflexões é o livro Homo Zappiens1, que demonstra que as crianças, crescendo em um mundo de tecnologia e de mudanças constantes, apresentam maior relutância em encaixar-se no sistema educacional do que qualquer outra geração antecedente. Uma vez que a tecnologia nos capacita a obter informações com facilidade, a sociedade está mudando seu modo de considerar a aprendizagem, passando da simples obtenção da informação à comunicação, à interpretação e à negociação. Segundo esse livro, enquanto julgarmos a geração “Homo zappiens” por parâmetros ultrapassados, nunca entenderemos que seu comportamento é, na verdade, uma estratégia que começa a surgir para lidar com nosso futuro digital e criativo.

As dúvidas sobre o futuro da educação formal atingem a todos: pais, educadores, sociedade. Existem muitas formas de interpretar essa nova realidade, e qualquer conclusão nesse sentido é arriscada. Mas na nossa reunião de pauta chegou-se a um mínimo consenso: parece que a saída, já que não há estrada de volta no caminho da evolução, é tornar as aulas formais, enquanto elas predominarem na academia, mais atraentes. Assim, existiria a possibilidade de uma convivência frutífera entre as gerações X, Y e Z. “Aula é teatro”, disse um dos conselheiros. Para ele, é imprescindível que o professor tenha a habilidade necessária para fisgar e manter a atenção do aluno. Portanto, nada de confiscar os gadgets e celulares no início de cada aula.

1Homo Zappiens - Educando na Era Digital, de Wim Veen e Ben Vrakking.

* Sandra é editora sênior da área de publicações técnicas e profissionais.

Catar coquinhos

5 29 março 2012 | 14:23

Por Cristina Ustárroz*

A mãe arrumava-se para sair. Jorginho, quatro anos de idade, entretinha-se feliz da vida com seus brinquedos esparramados no tapete da sala, bem ao lado do sofá onde seu pai assistia à TV. Elegante, a mãe aparece, pega a bolsa com as chaves do carro, dirige-se à porta da frente e, antes de sumir de vista, vira-se e diz para o pai: “vê se não tira os olhos do Jorginho.” Foi um Deus nos acuda! Jorginho abriu o berreiro, a mãe quase arrancou os cabelos e o pai, que parecia estar no mundo da lua, disse: “pode tirar o cavalinho da chuva e vem resolver esse pepino”.

Pois é! O Jorginho, que é uma criança, entendeu que seu pai iria arrancar-lhe os olhos. Literalmente! Édipo à parte, qualquer falante adulto de língua portuguesa bem sabe que não tirar os olhos de alguém significa simplesmente cuidar ou zelar ao extremo/não desviar o olhar, ao contrário do que o Jorginho supôs. Muitos mal-entendidos na comunicação, em qualquer idioma, tem sua origem na interpretação equivocada de expressões idiomáticas. Expressões o quê?

Idiomáticas! Que não são um bicho de sete cabeças, diga-se de passagem. Expressões idiomáticas são apenas combinações de palavras que, juntas, adquirem um significado diferente dos seus significados originais individuais, cujo resultado é um sentido mais figurativo do que óbvio. Você certamente sabe que engolir sapos quer dizer fazer/aceitar algo a contragosto, nada tendo a ver com o ato de engolir ou com sapos propriamente ditos. Logo, não basta reconhecer o significado isolado de cada palavra que forma a expressão. É preciso olhar para todo o grupo de palavras como uma única unidade. E se ligar no contexto. Sei, não, mas alguém aqui neste blog já deu a dica: o contexto sempre fala mais alto. Você sabe dizer quais eu já usei até aqui?

As expressões idiomáticas muitas vezes estão associadas a frases fixas, como provérbios, clichés, jargões, bordões ou gírias, e imprimem um caráter mais natural e espontâneo no idioma principalmente pela informalidade das palavras que as constituem. Consequentemente, elas estão muito mais presentes na língua falada do que na língua escrita e dão um tom mais colorido e enriquecedor à comunicação. Ninguém substituiria engolir sapos por deglutir batráquios, assim como ninguém diria romper a face em vez de quebrar a cara. Sinceramente, você diria colóquio para acalentar bovino no lugar de conversa pra boi dormir? Só se você tivesse 150 anos! E o que dizer de creditar o primata ao invés de pagar mico? Ai! Que mico! Acima de tudo, essas expressões transmitem informações ou experiências de uma determinada cultura. Sendo assim, elas podem parecer sem sentido – ou, se preferir, sem pé nem cabeça – quando usadas fora de sua comunidade. Quer ver como?


Mmmmm, gostoso!

Um cearense diria mais faceiro que guri de bombacha nova? Até poderia, mas esta expressão específica não faz parte da cultura do Ceará, já que guri e bombacha são referências do Rio Grande do Sul. Portanto, não seria esperado ouvir isso de um brasileiro de qualquer outro estado. Nem soaria natural. A não ser que esteja tirando sarro do mesmo modo que alguns gaúchos diriam vixe Maria puramente por diversão. Se, por um lado, a maioria das expressões idiomáticas está atrelada à cultura de um local, por outro algumas possuem uma maior universalidade por atravessarem fronteiras geográficas e barreiras culturais. Se algumas são mais temporais e sucumbem ao tempo, outras resistem a ele ou transformam-se. Há as mais transparentes, que podem parecer mais fáceis de traduzir. E há as mais metafóricas. O fato é que elas existem em todos os idiomas. Inclusive em inglês. E podem ser bastante divertidas. Alguém aí sabe dizer em inglês todas as expressões que usei até aqui em português?

Em 1988, Millôr Fernandes publicou um livro chamado The Cow Went to the Swamp / A Vaca foi pro Brejo. Nessa obra, o autor brinca com a tradução literal para o inglês de várias expressões faladas aqui no Brasil, a começar pelo título. E sua intenção parece ser exatamente esta: chamar a atenção para descuidos com traduções ao pé da letra que provocam, além de algumas boas risadas, uma linguagem artificial ou sem sentido em outra cultura. Ele cita a expressão bater as botas, por exemplo, e a traduz por beat the boots.

Na verdade, o verbo bater pode ter muitos equivalentes em inglês, dependendo do contexto. Bater papo é to chat, bater na porta é to knock on the door, bater palmas é to clap the hands, bater os ovos é to beat the eggs, bater em alguém é to strike someone e bater na bola é to hit the ball – isso no baseball, porque no futebol chutar a bola é to kick the ball, e nunca to shoot the ball. Millôr simplesmente escolheu beat por sua semelhança com o nosso bater. E é aí que está a graça. Mas qual é o real significado de bater as botas?

Bater as botas significa morrer e a expressão equivalente em inglês é to kick the bucket. Para os falantes de língua inglesa, to kick the bucket soa tão natural e espontâneo quanto bater as botas soa para nós, falantes de língua portuguesa. Porém, nada tem a ver com chutar o balde, que em português significa largar tudo/deixar acontecer para ver no que dá. Da mesma forma, o autor menciona matar aula e a traduz por to kill the class, em vez de to cut class, quando todos sabemos que o verbo matar nessa expressão não significa assassinar aula.

Há expressões idiomáticas que tem sua origem nos esportes, mas que migraram para além do contexto esportivo podendo hoje ser encontradas também em textos sobre economia, política ou qualquer outro assunto. É o caso de pisar na bola, cuja origem vem do baseball. Se você fosse brincar, como o Millôr fez, provavelmente arriscaria um to step on the ball, não é? Pois é. Não é! Pisar na bola significa cometer um deslize e seu equivalente em inglês é to drop the ball. No turfe, o cavalo desconhecido em quem ninguém apostou, mas que venceu a corrida, não possui necessariamente pelagem escura. Em inglês, contudo, esse azarão – ou grande zebra – é dark horse. A hit below the belt significa, no boxe, aplicar golpe baixo – estamos falando dos países baixos logo abaixo da cintura. E to raise the bar, em competições de salto em altura, significa elevar o nível de exigência.

Há também expressões alusivas aos animais. Bear market significa que as ações da bolsa de valores estão em baixa, enquanto que bull market quer dizer que estão em alta. To let the cat out of the bag nada tem a ver com tirar o gato da bolsa e sim revelar um segredo ou dar com a língua nos dentes. Every dog has his day significa um dia a sorte chega para cada um/o seu dia vai chegar. A white elephant sugere que algo é caro e inútil. E a snake in the grass refere-se a alguém traiçoeiro, em quem não se pode confiar.


"Não, hoje não é o meu dia!"

Falando em grass, que não por acaso é verde, no dia 17 de Março os irlandeses comemoram o Saint Patrick’s Day, ou Dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Nesse dia, eles se vestem de verde – como você sabe, verde é a cor oficial da Irlanda – e vão aos bares fazer jus a sua fama: encher a cara. Aí você pergunta: o que Saint Patrick tem a ver com expressões idiomáticas? Absolutamente nada, exceto que há muitas expressões com o adjetivo verde. Vejamos algumas: the grass is always greener on the other side of the fence significa o que é do vizinho é sempre melhor e seu equivalente em português é a galinha do vizinho é mais gorda. To have a green thumb nada tem a ver com dedo verde e sim ter mão boa para jardinagem; to give somebody the green light significa dar sinal verde ou permissão para prosseguir. Há, também, expressões com outras cores: to see red (ficar furioso), out of the blue (inesperadamente), brown-nose (puxa-saco) e white lie (uma mentirinha inocente). Algumas mencionam uma determinada cor em inglês, mas seu equivalente em português menciona outra. É o caso de yellow press (a imprensa marrom/sensacionalista). Mas, voltando ao verde, green stuff significa dinheiro. Ou melhor, grana, bufunfa.

Por falar em bufunfa, as notas de dólares americanos, as famosas verdinhas, são chamadas greenbacks. E existem várias expressões sobre dinheiro. Se você quiser dizer em inglês que algo custa os olhos da cara, diga it costs an arm and a leg. Se quiser dizer pagar os tubos, diga to pay through the nose. Se você quiser dizer que dinheiro não cai do céu, diga money does not grow on trees, In deep water significa precisamente estar em dificuldade financeira/com a corda no pescoço, da mesma forma que to be in the red significa estar com a conta negativa no banco. Já to be in the black é estar bem de finanças. E torrar dinheiro? Diga to burn money. Se estiver sem grana, diga I’m broke; mas se estiver cheio da grana, diga I’m loaded. Você é podre de rico? Então diga I’m stinking rich. E como dizer viver dentro do orçamento em inglês? To make ends meet.

Algumas expressões citam partes do corpo: break a leg (faça o seu melhor/boa sorte), to be on someone’s back (ficar no pé de alguém), make up your mind (decidir), e to lose face (ficar com a cara no chão). E tem aquelas expressões extremamente úteis como start from scratch (começar do zero), you’re in luck (você está com sorte), go back to square one (voltar à estaca zero) e off the hook (ficar livre de algum compromisso/obrigação). Outras parecem ter um determinado significado, mas tem o sentido oposto. É o caso de just my luck (que azar), it’s no good (não adianta/não serve para nada), beats me (sei lá), I don’t get it (não entendo), he bought it (ele acreditou/caiu no conto do vigário), go figure (vá saber), I can’t help it (não consigo evitar) e take it easy (cuide-se).


Off the hook, literalmente!

Finalmente, beats me não significa bater em mim, assim como bite me não significa morda-me. Beats me quer dizer sei lá e bite me quer dizer pare com isso/vá ver se estou na esquina/vá catar coquinho. E para seu governo, ou, se preferir, for your information, aqui vai uma pérola do já saudoso Millôr: “Quando os eruditos descrobriram a língua, ela já estava completamente pronta pelo povo.” Esse, sim, deveria viver 150 anos. But now he is off the hook!

Notas altamente esclarecedoras

• Na língua inglesa, o termo idiom corresponde à expressão idiomática em português. Sendo assim, a palavra idioma não dever ser traduzida para o inglês por idiom e sim por language.
• Quando usamos uma expressão idiomática em português, como ficar com a cara no chão, e a traduzimos literalmente por stay with the face on the ground estamos na verdade fazendo uma tradução de improviso ou de emergênciamakeshift translation em inglês – que dificilmente corresponderá à melhor tradução por distanciar-se do verdadeiro significado da expressão original. Preste atenção:
Expressão idiomática original: ficar com a cara no chão
Makeshift translation: stay with the face on the ground
Significado: passar por situação extremamente constrangedora
Idiom: to lose face
• Millôr Fernandes (1924-2012) faleceu no dia 28 de Março, quando eu ainda não havia finalizado este texto.

*Cristina é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.

Um dia para lá de especial

1 28 março 2012 | 18:03

Invisíveis, eles atuam nos bastidores: editam, cortam, alinham, arranjam, distribuem. Rápidos e rasteiros, são implacáveis. Viúvas e órfãs não são perdoadas. Vírgula separando sujeito e predicado, então, é corte na certa. E ai de você se não souber usar a crase – cabeças vão rolar!

Hoje é o dia do revisor e do diagramador, dois profissionais que realmente fazem a diferença na editora. Sem eles, o que seriam dos nossos livros? Textos cheios de arestas, sem o brilho da edição e do ajuste correto.

Parabéns a todos os revisores e diagramadores que nos acompanham todos os dias e nos ajudam a aprimorar nossos conhecimentos a cada livro que passa. As mais de 800 "curtidas" e os quase 700 compartilhamentos no Facebook comprovam: vocês são muito especiais.

É o que desejam todos os editores e colaboradores do Grupo A. ;-]

Inspiração #25: Como marcar um livro

10 19 março 2012 | 10:56

Quem preza pelo bom estado dos seus queridos livros bem sabe: marcar as páginas com as “orelhas” das obras (aquela parte da capa que fica do lado de dentro) ou dobrando a ponta do papel, nem pensar! Livro é para ser tratado com carinho – por vezes até rabiscado ou sublinhado, mas nunca, jamais, amassado!

Mas então como acompanhar a leitura sem se perder entre as centenas de páginas pelo caminho? Eis que entram em cena os marcadores, aqueles pequenos e muito úteis companheiros. Seja na forma de um post-it, pedaço de papel rasgado do caderno ou acessório colorido, eles são imprescindíveis para qualquer bibliófilo. Na inspiração desta semana, confira oito marcadores de página criativos:

Para livros altamente inflamáveis.

Este ficaria bom com o nosso lançamento Educação Ambiental!

Não esqueça a página nem a frase em que você parou.

Ei, você está aqui!

Um marcador um pouco gosmento, mas nem por isso menos divertido!

Marque a página e retire seus livros da estante com facilidade!

Um marcador que é pura fofura!

Àqueles que se sentem solitários durante a leitura, os marcadores da Penso são companheiros de outro mundo!

E você, como marca as páginas dos seus livros?

A vantagem de um livro complexo

2 14 março 2012 | 10:49

Por Alberto Schwanke*

Outro dia, chegaram mais alguns capítulos traduzidos de um livro que está em produção aqui na divisão de biociências: o Manual de Neurocirurgia. Abri os arquivos, como de costume, e examinei o trabalho do tradutor. Entre todos os livros em que já trabalhei, o Manual de Neurocirurgia talvez seja um dos mais complexos quanto à linguagem e aos termos técnicos utilizados. Um dos trechos traduzidos dizia o seguinte: “A zona de entrada da raiz (também conhecida como zona de Obersteiner-Redlich) é o ponto onde a mielina central (proveniente das células da oligodendróglia) se transforma em mielina periférica (proveniente das células de Schwann).”

Quando vejo uma frase como essa, que não pertence ao meu universo de formação acadêmica, lembro de outro projeto em que trabalhei alguns anos atrás: um livro com algumas páginas na língua árabe. Nas duas ocasiões, tive aquela inquietude de quem não compreende o conteúdo (alguém aí já teve sensação parecida?) e valorizei ainda mais o trabalho dos diversos profissionais que colaboram na produção de um livro, cada um contribuindo com sua habilidade específica.

Um desses profissionais, um rapaz chamado Dave Glover que conheci quando trabalhava na Inglaterra, tinha sempre uma atitude positiva em relação ao seu ofício e usava muito a gíria da língua inglesa “it's not brain surgery”, quando queria dizer que alguma tarefa não era assim tão difícil. Pois o Manual de Neurocirurgia é a antítese da gíria inglesa, na medida em que trata exatamente de... cirurgia do cérebro (brain surgery)!

Desde o momento em que comecei a trabalhar no livro, já percebi que não seria um projeto muito simples. Mas o Manual de Neurocirurgia traz consigo uma grande vantagem: faz os outros livros da minha programação parecerem mais fáceis.

*Alberto é editor de Biociências e o bendito fruto entre as editoras do Grupo A!

Sobre o BlogA

Será que de médico, artista e louco todo mundo tem mesmo um pouco? Aqui no BlogA você vai encontrar de medicina a design, de filosofia a psicologia, de ilustração a poesia; pinceladas divertidas de todas as áreas de publicação do Grupo A. Quer nos enviar dicas ou sugestões? Escreva para bloga@grupoa.com.br ou fale direto com a Elisa Viali em eviali@grupoa.com.br.

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