Por Cristina Ustárroz*
A mãe arrumava-se para sair. Jorginho, quatro anos de idade, entretinha-se feliz da vida com seus brinquedos esparramados no tapete da sala, bem ao lado do sofá onde seu pai assistia à TV. Elegante, a mãe aparece, pega a bolsa com as chaves do carro, dirige-se à porta da frente e, antes de sumir de vista, vira-se e diz para o pai: “vê se não tira os olhos do Jorginho.” Foi um Deus nos acuda! Jorginho abriu o berreiro, a mãe quase arrancou os cabelos e o pai, que parecia estar no mundo da lua, disse: “pode tirar o cavalinho da chuva e vem resolver esse pepino”.
Pois é! O Jorginho, que é uma criança, entendeu que seu pai iria arrancar-lhe os olhos. Literalmente! Édipo à parte, qualquer falante adulto de língua portuguesa bem sabe que não tirar os olhos de alguém significa simplesmente cuidar ou zelar ao extremo/não desviar o olhar, ao contrário do que o Jorginho supôs. Muitos mal-entendidos na comunicação, em qualquer idioma, tem sua origem na interpretação equivocada de expressões idiomáticas. Expressões o quê?
Idiomáticas! Que não são um bicho de sete cabeças, diga-se de passagem. Expressões idiomáticas são apenas combinações de palavras que, juntas, adquirem um significado diferente dos seus significados originais individuais, cujo resultado é um sentido mais figurativo do que óbvio. Você certamente sabe que engolir sapos quer dizer fazer/aceitar algo a contragosto, nada tendo a ver com o ato de engolir ou com sapos propriamente ditos. Logo, não basta reconhecer o significado isolado de cada palavra que forma a expressão. É preciso olhar para todo o grupo de palavras como uma única unidade. E se ligar no contexto. Sei, não, mas alguém aqui neste blog já deu a dica: o contexto sempre fala mais alto. Você sabe dizer quais eu já usei até aqui?
As expressões idiomáticas muitas vezes estão associadas a frases fixas, como provérbios, clichés, jargões, bordões ou gírias, e imprimem um caráter mais natural e espontâneo no idioma principalmente pela informalidade das palavras que as constituem. Consequentemente, elas estão muito mais presentes na língua falada do que na língua escrita e dão um tom mais colorido e enriquecedor à comunicação. Ninguém substituiria engolir sapos por deglutir batráquios, assim como ninguém diria romper a face em vez de quebrar a cara. Sinceramente, você diria colóquio para acalentar bovino no lugar de conversa pra boi dormir? Só se você tivesse 150 anos! E o que dizer de creditar o primata ao invés de pagar mico? Ai! Que mico! Acima de tudo, essas expressões transmitem informações ou experiências de uma determinada cultura. Sendo assim, elas podem parecer sem sentido – ou, se preferir, sem pé nem cabeça – quando usadas fora de sua comunidade. Quer ver como?

Mmmmm, gostoso!
Um cearense diria mais faceiro que guri de bombacha nova? Até poderia, mas esta expressão específica não faz parte da cultura do Ceará, já que guri e bombacha são referências do Rio Grande do Sul. Portanto, não seria esperado ouvir isso de um brasileiro de qualquer outro estado. Nem soaria natural. A não ser que esteja tirando sarro do mesmo modo que alguns gaúchos diriam vixe Maria puramente por diversão. Se, por um lado, a maioria das expressões idiomáticas está atrelada à cultura de um local, por outro algumas possuem uma maior universalidade por atravessarem fronteiras geográficas e barreiras culturais. Se algumas são mais temporais e sucumbem ao tempo, outras resistem a ele ou transformam-se. Há as mais transparentes, que podem parecer mais fáceis de traduzir. E há as mais metafóricas. O fato é que elas existem em todos os idiomas. Inclusive em inglês. E podem ser bastante divertidas. Alguém aí sabe dizer em inglês todas as expressões que usei até aqui em português?
Em 1988, Millôr Fernandes publicou um livro chamado The Cow Went to the Swamp / A Vaca foi pro Brejo. Nessa obra, o autor brinca com a tradução literal para o inglês de várias expressões faladas aqui no Brasil, a começar pelo título. E sua intenção parece ser exatamente esta: chamar a atenção para descuidos com traduções ao pé da letra que provocam, além de algumas boas risadas, uma linguagem artificial ou sem sentido em outra cultura. Ele cita a expressão bater as botas, por exemplo, e a traduz por beat the boots.
Na verdade, o verbo bater pode ter muitos equivalentes em inglês, dependendo do contexto. Bater papo é to chat, bater na porta é to knock on the door, bater palmas é to clap the hands, bater os ovos é to beat the eggs, bater em alguém é to strike someone e bater na bola é to hit the ball – isso no baseball, porque no futebol chutar a bola é to kick the ball, e nunca to shoot the ball. Millôr simplesmente escolheu beat por sua semelhança com o nosso bater. E é aí que está a graça. Mas qual é o real significado de bater as botas?
Bater as botas significa morrer e a expressão equivalente em inglês é to kick the bucket. Para os falantes de língua inglesa, to kick the bucket soa tão natural e espontâneo quanto bater as botas soa para nós, falantes de língua portuguesa. Porém, nada tem a ver com chutar o balde, que em português significa largar tudo/deixar acontecer para ver no que dá. Da mesma forma, o autor menciona matar aula e a traduz por to kill the class, em vez de to cut class, quando todos sabemos que o verbo matar nessa expressão não significa assassinar aula.
Há expressões idiomáticas que tem sua origem nos esportes, mas que migraram para além do contexto esportivo podendo hoje ser encontradas também em textos sobre economia, política ou qualquer outro assunto. É o caso de pisar na bola, cuja origem vem do baseball. Se você fosse brincar, como o Millôr fez, provavelmente arriscaria um to step on the ball, não é? Pois é. Não é! Pisar na bola significa cometer um deslize e seu equivalente em inglês é to drop the ball. No turfe, o cavalo desconhecido em quem ninguém apostou, mas que venceu a corrida, não possui necessariamente pelagem escura. Em inglês, contudo, esse azarão – ou grande zebra – é dark horse. A hit below the belt significa, no boxe, aplicar golpe baixo – estamos falando dos países baixos logo abaixo da cintura. E to raise the bar, em competições de salto em altura, significa elevar o nível de exigência.
Há também expressões alusivas aos animais. Bear market significa que as ações da bolsa de valores estão em baixa, enquanto que bull market quer dizer que estão em alta. To let the cat out of the bag nada tem a ver com tirar o gato da bolsa e sim revelar um segredo ou dar com a língua nos dentes. Every dog has his day significa um dia a sorte chega para cada um/o seu dia vai chegar. A white elephant sugere que algo é caro e inútil. E a snake in the grass refere-se a alguém traiçoeiro, em quem não se pode confiar.

"Não, hoje não é o meu dia!"
Falando em grass, que não por acaso é verde, no dia 17 de Março os irlandeses comemoram o Saint Patrick’s Day, ou Dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Nesse dia, eles se vestem de verde – como você sabe, verde é a cor oficial da Irlanda – e vão aos bares fazer jus a sua fama: encher a cara. Aí você pergunta: o que Saint Patrick tem a ver com expressões idiomáticas? Absolutamente nada, exceto que há muitas expressões com o adjetivo verde. Vejamos algumas: the grass is always greener on the other side of the fence significa o que é do vizinho é sempre melhor e seu equivalente em português é a galinha do vizinho é mais gorda. To have a green thumb nada tem a ver com dedo verde e sim ter mão boa para jardinagem; to give somebody the green light significa dar sinal verde ou permissão para prosseguir. Há, também, expressões com outras cores: to see red (ficar furioso), out of the blue (inesperadamente), brown-nose (puxa-saco) e white lie (uma mentirinha inocente). Algumas mencionam uma determinada cor em inglês, mas seu equivalente em português menciona outra. É o caso de yellow press (a imprensa marrom/sensacionalista). Mas, voltando ao verde, green stuff significa dinheiro. Ou melhor, grana, bufunfa.
Por falar em bufunfa, as notas de dólares americanos, as famosas verdinhas, são chamadas greenbacks. E existem várias expressões sobre dinheiro. Se você quiser dizer em inglês que algo custa os olhos da cara, diga it costs an arm and a leg. Se quiser dizer pagar os tubos, diga to pay through the nose. Se você quiser dizer que dinheiro não cai do céu, diga money does not grow on trees, In deep water significa precisamente estar em dificuldade financeira/com a corda no pescoço, da mesma forma que to be in the red significa estar com a conta negativa no banco. Já to be in the black é estar bem de finanças. E torrar dinheiro? Diga to burn money. Se estiver sem grana, diga I’m broke; mas se estiver cheio da grana, diga I’m loaded. Você é podre de rico? Então diga I’m stinking rich. E como dizer viver dentro do orçamento em inglês? To make ends meet.
Algumas expressões citam partes do corpo: break a leg (faça o seu melhor/boa sorte), to be on someone’s back (ficar no pé de alguém), make up your mind (decidir), e to lose face (ficar com a cara no chão). E tem aquelas expressões extremamente úteis como start from scratch (começar do zero), you’re in luck (você está com sorte), go back to square one (voltar à estaca zero) e off the hook (ficar livre de algum compromisso/obrigação). Outras parecem ter um determinado significado, mas tem o sentido oposto. É o caso de just my luck (que azar), it’s no good (não adianta/não serve para nada), beats me (sei lá), I don’t get it (não entendo), he bought it (ele acreditou/caiu no conto do vigário), go figure (vá saber), I can’t help it (não consigo evitar) e take it easy (cuide-se).

Off the hook, literalmente!
Finalmente, beats me não significa bater em mim, assim como bite me não significa morda-me. Beats me quer dizer sei lá e bite me quer dizer pare com isso/vá ver se estou na esquina/vá catar coquinho. E para seu governo, ou, se preferir, for your information, aqui vai uma pérola do já saudoso Millôr: “Quando os eruditos descrobriram a língua, ela já estava completamente pronta pelo povo.” Esse, sim, deveria viver 150 anos. But now he is off the hook!
Notas altamente esclarecedoras
• Na língua inglesa, o termo idiom corresponde à expressão idiomática em português. Sendo assim, a palavra idioma não dever ser traduzida para o inglês por idiom e sim por language.
• Quando usamos uma expressão idiomática em português, como ficar com a cara no chão, e a traduzimos literalmente por stay with the face on the ground estamos na verdade fazendo uma tradução de improviso ou de emergência – makeshift translation em inglês – que dificilmente corresponderá à melhor tradução por distanciar-se do verdadeiro significado da expressão original. Preste atenção:
Expressão idiomática original: ficar com a cara no chão
Makeshift translation: stay with the face on the ground
Significado: passar por situação extremamente constrangedora
Idiom: to lose face
• Millôr Fernandes (1924-2012) faleceu no dia 28 de Março, quando eu ainda não havia finalizado este texto.
*Cristina é a professora de inglês preferida dos colaboradores do Grupo A.